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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

31
Mai16

O Solitário recomenda

Sr. Solitário

Cá em casa usamos sempre o champô da marca Pantene. A nível de qualidade e preço, na minha opinião, esta marca está bem estruturada no mercado nacional. Já para não falar que tem a opção de 2 em 1, facilitando trabalho para quem tem de utilizar amaciador no seu cabelo.

 

No entanto, no domingo passado fui às compras, vi que o champô Elvive da marca L'oréal estava em promoção e decidi comprar só para experimentar.

O feedback não podia ter sido mais positivo. Após uma lavagem fiquei com o meu cabelo bem mais forte e bastante macio. Liso e sedoso. Adorei! Já para não falar do cheiro que deixa no cabelo, maravilhoso! E não precisei de colocar amaciador.

 

O Solitário recomenda

 

 

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31
Mai16

A curiosidade da minha mãe

Sr. Solitário

A minha mãe é uma das pessoas mais curiosas que conheço. E para comprovar isso vou contar-vos uma situação que se passou ontem.

 

A folga da minha mãe é à segunda-feira. Nesses dias vamos sempre dar uma volta pela cidade mais próxima. Ora então estávamos nós a caminhar um pouco quando ela viu uma carta abandonada num banco, uma carta do centro de emprego.

Adivinhem lá o que ela fez!

Ela dirige-se até à carta, pega na carta, saca dos óculos que estão na bolsa dela, coloca os óculos, vê o nome do destinatário a quem era dirigida a dita cuja, retira a carta do envelope, lê a carta na sua totalidade e comenta comigo o que está escrito na carta.

Diz-me que é uma convocatória para uma formação a ser realizada num centro de formação onde eu já estudei.

 

Eu respondo-lhe "ó mãe a sério?! Deixa isso!!". Eu estava a olhar para todos os lados para ver se alguém estava a presenciar a cena dela, todo envergonhado.

 

Ela volta a colocar a carta dentro do envelope e volta a deixa-la no mesmo sítio onde ela estava. Põem os óculos dentro da bolsa e continua o seu passeio como se nada tivesse acontecido.

 

E agora eu pergunto: existe alguém mais curioso que ela? Parece-me que não!

 

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28
Mai16

O caderno das dedicatórias

Sr. Solitário

Eu não sei como funcionam estas coisas nos dias de hoje mas, no meu tempo, comprávamos um caderno com o propósito de que todos os nossos amigos e colegas escolares, e também alguns dos professores, nos escrevessem uma dedicatória, algo que ficasse para sempre escrito numa folha de papel.

 

Ainda guardo o meu. Cada folha e cada mensagem são especiais à sua maneira. Ao ler estas simples folhas de papel escritas dá-me sempre uma nostalgia, uma vontade de regressar ao passado e reviver alguns dos momentos bons que passei na escola, que também os passei, nem tudo foi mau.

 

Tenho apenas alguns contactos de colegas da escola. Parece que foi algo que ficou ali, no ano de 2002. Algumas amizades acabaram, deixaram de existir, pelas circunstâncias da vida que não quis que nos voltássemos a cruzar. Muitos dos meus colegas passam por mim e não me reconhecem... ou fazem de conta que não me conhecem, não sei e, sinceramente, nem quero saber.

 

Várias mensagens de carinho e afeto, não irão passar disso mesmo, de mensagens escritas numa folha de papel de um caderno de dedicatórias comprado com alguns trocos de semanada, na papelaria da escola. Mas, mesmo assim, não deixa de ter a sua importância para mim.

Podem ler-se votos de desejos de felicidade, concretização de sonhos, muita sorte e sucesso na vida.

 

Será que nos dias de hoje existe alguém que tem um caderno de dedicatórias? Não me parece... é mais fixe deixar uma mensagem no mural do facebook. Estes jovens de hoje não sabem, nem nunca vão saber, a importância que um caderno de dedicatórias pode ter.

 

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27
Mai16

Bullying (parte 3)

Sr. Solitário

Estamos em setembro, no ano de 2000. Mais um ano letivo irá começar. E a minha tortura também. Depois de 9 meses sob agressões de todo o género, 3 meses de férias é muito pouco, não chega para curar as feridas.

 

Ao entrar novamente pelos portões da escola após as férias, faço-o a medo, com um aperto muito grande no peito, pois eu sei perfeitamente o que vai acontecer durante mais um ano. No fundo de mim, tenho uma esperança que, pelo menos, o meu principal agressor tenha mudado de turma ou que no mínimo não fiquemos na mesma mesa. O ano passado ele era o número 11 e eu o 12.

 

Dirijo-me à sala polivalente onde estão afixados os horários e as listas das turmas. Nada mudou. Ele continua a ser o 11 e eu o 12. Iremos partilhar mais um ano a mesma mesa. Mais um ano em que o agressor estará tão perto de mim, torturando-me mesmo durante as aulas. Eu não mereço! Ninguém merece.

Uma das minha amigas diz "vais ficar outra vez a beira do (***) ,que horror!". Pois é, é mesmo um horror, mas ninguém quer saber, tenho que aturar. É a vida.

 

Vou para a sala onde vou ter a primeira aula. Pelo caminho ouço "olha a bicha" e dão-me uma chapada na cabeça em jeito de boas vindas. Os outros riem-se de mim.

Não digo nada, nem um ai! Porque se eu disser "ai" eles gozam logo comigo. Um homem nunca diz "ai", isso é coisa para abichanados, como eu.

 

Na aula é-nos pedido para preencher uma ficha. Estou tão transtornado que me engano a escrever a minha data de nascimento. O agressor que está ao meu lado apercebe-se e diz em alto e bom som "ó moço, nascente em 2000?! És mesmo tono!" Outra chapada na cabeça. Os outros riem-se. A professora faz de conta que não viu nada. Estão mais de 20 pessoas naquela sala, mas ninguém viu nada.

 

Durante a aula, o principal agressor começa a rasgar folhas do caderno, amachuca-as e põe-nas dentro da minha camisola. Eu tiro-as. Ele diz que se volto a tirar alguma chego lá fora e ele parte-me os dentes todos. Ele continua. Eu fico quieto. Mas não consigo aguentar mais e começo a chorar. A professora pergunta o que se passa e porque estou a chorar. Não consigo responder e ela manda-me lá para fora para respirar um pouco de ar.

Ele fica lá dentro como se não tivesse feito nada. Quem me mandou chorar? Assim perdi a aula. Problema meu.

 

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26
Mai16

No Centro de Dia

Sr. Solitário

Ontem à tarde decidi fazer uma visita ao Centro de Dia aqui da minha zona. Falaram-me que o poderia fazer durante uma hora, das 14:30 até às 15:30. Fiquei curioso e na expectativa de como me iriam receber. Ao início tenho sempre esta dificuldade em relacionar-me com as outras pessoas, acanho-me.

 

Levei um DVD do Grupo Folclórico do qual faço parte já há 10 anos para poderem ver e divertirem-se, pois os velhinhos gostam muito disso, eram o seu divertimento, nas suas juventudes.

 

Cheguei e deparei-me com uma sala ampla onde vi muitas senhoras, e alguns senhores em minoria, sentados a ver televisão. Uma série qualquer que estava a dar na RTP. Alguns dormitavam, outros assistiam com atenção. Porém, mal cheguei, todos os rostos enrugados e olhares curiosos, outros desconfiados, se voltaram para mim.

Disse "Boa Tarde" com um sorriso rasgado. Responderam-me quase em uníssono. Alguns falaram com o seu colega do lado, certamente a perguntarem quem eu era e o que estava lá a fazer. Nem eu próprio sabia muito bem o que fazer! Fui movido pelo coração. E ele transmitiu-me que eu deveria estar ali naquele preciso momento.

 

Eis que, de repente, vi um rosto conhecido. O Sr. Chico estava ali sentado, o meu antigo vizinho, com a sua esposa. Dirigi-me logo a ele e cumprimentei-o.

Disse-me que estavam melhor ali, tinham companhia para conversar e eram bem tratados. Fiquei contente por o saber. Ouvi-o atentamente, sempre concordando com tudo. Depois lá me perguntou que idade eu tinha agora. Respondi-lhe que já tinha feito 30 anos à cerca de umas semanas atrás.

 

"Já?!" - respondeu-me de uma forma tão surpresa e admirada. Pois é Sr. Chico, o tempo vai passando.

"Quando te conheci eras ainda um putozito! Pequenito!" - recordou ele. E a minha memória recuou até esses tempos tão bons da minha infância e que nunca vou esquecer.

 

De seguida, dirigi-me a outra senhora que conhecia quando ia rezar o terço todos os dias durante o mês de maio, o mês de Maria.

"Estou aqui agora, o meu sobrinho está a pagar para eu estar aqui. Antes tinha algum dinheiro, mas dei tudo quando vim para aqui, agora fiquei sem nada" - confidenciou-me a Sr.ª Gertrudes com um olhar triste. "É assim a vida".

 

Outras senhoras disseram-me que eram irmãs e estavam ali juntas. Uma outra senhora não quis falar comigo, disse-me que estava tudo bem com ela e a conversa encerrou ali. Afinal ninguém era obrigado a falar comigo.

 

"Tu tens que pôr mais côdeas de pão na sopa que estás muito magrinho!!" - disse-me a senhora Maria. "Mas estás bem de saúde?" Disse que estava tudo bem, e isso é que importa.

Muitos perguntaram de onde eu era e filho de quem. Alguns reconheceram-me a mim e à minha famílias, outros não.

O senhor Joaquim, homem forte e bastante brincalhão, perguntou-me se já tinha namorada. Respondi que sim, tenho namorada sim senhor! Não podia responder a verdade, senão ainda escandalizava toda a gente presente naquela sala!

Disse-me que eu dava para ser sacristão!! E todos se riram da piada. Eu sacristão?! Não me parece Sr. Joaquim!

 

Saí de lá com o coração tão cheio! Todo ele transboradava alegria, pois eu proporcionei um dia diferente a todos aqueles velhinhos. Todos tiveram uma visita, uns de alguém que não conheciam, mas todos eles tiveram uma visita, pois eu fiz questão de falar com todas as pessoas. Temos tanto a aprender com eles.

 

Inscrevi-me para fazer trabalho voluntário lá, e peço aos céus para que me aceitem, pois nada me faria mais feliz agora. Quero mesmo muito tomar conta daqueles velhinhos, fazer tudo o que puder por eles, ensinar-lhes o que sei, aprender com eles. Não quero nada em troca, só os seus sorrisos e as suas histórias pagam o maior ordenado do mundo!

 

25
Mai16

"Não estamos a precisar de ninguém"

Sr. Solitário

Esta é a frase que ouço tantas vezes ao longo dos meus dias. A cada porta que bato, numa tentativa voluntária de perguntar se, porventura, não estão a precisar de alguém para trabalhar, ouço sempre um NÃO bem redondo. Isto ao referir as pessoas que me respondem, pois existem muitas que nem a porta abrem, ignoram-me.

 

Existem várias formas de dizer que não. Eu pelo menos conheço duas: o "não" como quem diz "temos pena mas de momento não estamos a contratar ninguém"; e o "não" do género "põem-te andar!". Esses é que custam. Sinto-me como um cão escorraçado, aliás, nem os cães merecem tal tratamento.

 

Ontem, fui a três fábricas pedir trabalho. Apenas umas horas, algo que me faça sentir útil, ter objetivos para o dia, sentir-me parte desta sociedade. "Não estamos a precisar de ninguém" - escuto. Acho que consigo fazer uma coleção destas frases que enchiam um caderno inteiro, como daqueles castigos que nos davam na escola quando cometíamos um erro numa palavra e a teríamos que escrever repetidamente.

 

Por vezes tenho vontade de desistir, mas não posso, porque eu preciso de viver. Então, levanto a cabeça e vou bater a outra porta, esperando que a sorte me espreite por ela.

 

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23
Mai16

A aletria da minha avó

Sr. Solitário

Não sei se é por causa do tempo que se tem sentido, ainda frio, ou se das saudades que sinto de tempos mais antigos, ontem apeteceu-me comer aletria. Quente, doce, com canela... uma maravilha!

 

Então, arregacei as mangas e decidi fazê-la eu. Mas como eu cá em casa não tenho balança, a coisa não correu lá muito bem, pois tive que a fazer a olho. Quer dizer, não correu assim tão mal, faltava era um pouco mais de açúcar. Contudo, já deu para matar um pouco as saudades. Repeti três vezes!

 

Isto fez-me recuar um pouco nas minhas memórias até a um passado, não muito longínquo, em que a minha avó fazia a melhor aletria do mundo.

Visitava a minha avó regularmente, fazia quilómetros a pé (na altura não tinha carro) para a ir ver e estar um pouco com ela. Sabia-me tão bem todo o carinho que me dava, toda aquela preocupação que tinha sempre para comigo.

Parece que ainda a consigo ouvir nos meus pensamentos a dizer-me, mal eu chegava, "eii Hélder, tu estás tão magrinho! Anda fazer uma sandes. Tenho aqui queijo do bom, que tu gostas!" Ah! Aquelas sandes sabiam-me tão bem! Ainda lhes consigo sentir o gosto.

 

Mas do que eu gostava mais era da aletria que ela fazia. Disse tantas vezes "avó, o que me apetecia mesmo era um prato de aletria acaba de fazer!". E ela prontificava-se logo para a fazer. "Faço já um tacho cheiinho para comeres até não poderes mais! Mas cuidado, que ela quente faz-te mal."

Eu não ligava ao que ela dizia e comia quase meia travessa sozinho. Ela ria-se, e dizia para eu voltar no outro dia que, se fosse preciso, fazia mais aletria para mim.

 

Hoje a minha avó sofre de Alzheimer. Já não se lembra de ninguém, nem de mim, do seu neto mais querido. Nunca mais chamou pelo meu nome e certamente que nunca mais o irei ouvir da voz dela.

Visito-a sempre que posso. Ela já não consegue caminhar, está sentada na cadeira, outras vezes no sofá, olhando o vazio, aquele olhar sem expressão, sem alma. Pego-lhe na mão e afago-a, dou-lhe carinho, retribuindo todo aquele que ela me deu desde que nasci. Sinto essa necessidade.

Por vezes, pego na mão dela e acaricio-a no meu rosto. A minha carência é muito grande!

 

Certo dia perguntei-lhe "avó, você da-me uma sandes?" e ela respondeu-me "dou sim senhora!". Mas eu não a comi, ela não passava na garganta. Saí de perto dela por uns momentos, e chorei como um menino chora com saudades da avó.

 

Tenho a certeza que no coração dela, todos nós estamos lá. Ela pode não lembrar-se, o cérebro dela está cansado, mas ela ainda nos consegue sentir, e ama-nos como sempre amou, até ao fim da sua vida.

 

Saudades avó, saudades da tua aletria, e do teu carinho.

21
Mai16

À conversa com... André Mendonça (parte 2)

Sr. Solitário

S: Amas o teu namorado incondicionalmente?

A: Estamos juntos faz 8 meses no próximo dia 6 de junho, e têm sido, de facto, os melhores tempos da minha vida. É o meu primeiro relacionamento sério, estou orgulhoso de cada passo, cada conquista, cada vitória...de ambos. Após muitos casos falhados, e lágrimas derramadas, já eu a pensar que jamais alguém poderia amar-me, e isso ser reciproco, eis que aí conheci por incrível acaso e destino, a minha metade da laranja… Tudo começou, estávamos meados de outubro de 2015 sendo mais concreto numa noite morna de outono, sentia-me sozinho e triste, estava magoado com um rapaz que supostamente teria interesse em mim, mas que desapareceu misteriosamente. Tudo o que não queria era algo sério, estava cansado de tentar, e tentar, e acabava sempre por sair magoado... mas lá está a vida às vezes trama-nos umas vezes para pior ou para melhor, que acabou por ser o caso, acabei por ganhar inesperadamente uma companhia para dormir e aliviar o stress, ... foi uma noite maravilhosa. E, a cada dia que passa cada vez tenho mais certezas de que encontrei o homem da minha vida, e que um dia quero passar a fazer ainda mais parte da dele: casar e ter filhos. Nada na vida é eterno, mas amo-o como nunca fui capaz de amar alguém antes, consigo agora entender o verdadeiro significado de “amar alguém”!

 

S: São felizes juntos?

A: Somos muito felizes um com o outro, temos os nossos momentos menos bons, as nossas turras como todos os casais, mas ao longo desta viagem estamos a aprender imenso sobre a vida juntos, partilhando as nossas aprendizagens e experiências. 
No inicio o que ambos apenas queríamos era uma amizade colorida, mas com o evoluir do tempo o cupido fez das suas. É absolutamente incrível e impensável encontrar alguém com a cabeça no lugar, num site de engate muito popular, “Manhunt”. Este é daqueles sítios onde jamais se pensa que se encontra alguém para algo sério, verdadeiro e duradouro.
É tão incrível como um "Não queres companhia para dormir?" fez o encanto daquela noite. Parece um filme… foi no momento certo, à hora certa - Destino. Desde que o vi, que senti o “clique”, algo me disse que ali à minha frente estaria uma pessoa muito especial, com muito para dar-me: amor, carinho, amizade, etc.

 

S: Há quem diga que homossexualidade é doença. O que tens a dizer a essas pessoas?

A: As pessoas que ainda pensam que homossexualidade é uma doença deveriam evoluir em pessoa e em ser. Não impor barreiras ao amor.

Para amarmos alguém não interessa o sexo, raça, religião… O que interessa mesmo é o significado do sentimento Amor para nós e para esse alguém.
A homossexualidade é um pequeno detalhe que faz parte de nós desde a nossa existência, é uma forma de amar tal como a heterossexualidade, é bonita, verdadeira, real, sincera.
Nenhum ser me venha com a história de que um homem que é homem não chora. Isso é uma completa mentira, pois todos temos sentimentos e não devemos ter vergonha de nós próprios, de sermos o que somos. Homens de verdade, também choram, amam, riem, sentem-se destroçados, destruídos por dentro, parecendo que o mundo vai acabar, ficam noites pensando no que fazer, homens gostam de atenção, carinho, conversas, (...) de se sentirem amados, de se sentirem importantes para alguém! E acima de tudo homens também sofrem, sonham e têm um projecto de vida!

 

S: Finalmente deste a cara num programa de televisão, contando abertamente a tua história. Valeu a pena?

A: Sim, valeu a pena e foi das melhores coisas que fiz. Decidi finalmente que já estava mais do que na hora de partilhar a minha história de vida, a minha vivência, por forma a inspirar outros, e a demonstrar a força a coragem e orgulho que tenho em ser quem sou. E também para poder contribuir para uma diminuição do preconceito e homofobia existentes! O feedback que tenho obtido tem sido muito positivo e tenho encontrado pessoas com bom coração, que me querem ajudar naquilo que podem. Muitos dos que viram ficaram comovidos com o meu testemunho e felicitaram a minha coragem para ser quem sou sem medos. 

Quem não viu e quer rever faça-o aqui: http://sicnoticias.sapo.pt/programas/e-se-fosse-consigo/2016-05-09-E-se-fosse-consigo--A-homofobia

 

S: Qual é o contacto que tens com os teus pais neste momento?

A: Nenhum absolutamente. Faz cinco meses, dia 25 de maio, que toda a minha família se esquece que eu alguma vez existi.
À medida que o tempo passa, a teoria de não ter sido um filho desejado faz cada vez mais sentido... Como podem gostar de mim e amar-me, tendo feito aquilo que me fizeram? Chamar-me de "aberração", "paneleiro", dizer que pessoas como eu "não são nada, nem ninguém", que "eu é que escolhi esta vida", ser chamado de "drogado", entre outras coisas piores.

Há coisas jamais mudam... a relação com eles continuou a ser a mesma com o passar do tempo desde 2012. Os meus pais continuaram os iguais de sempre: a renegar-me, maltratar-me e criticar-me por tudo e mais alguma coisa. Continuaram as chantagens e manipulações emocionais, quererem saber tudo da minha vida pessoal e íntima, sem olhar a meios... Até que chegou o ponto de rotura, sendo que foram eles próprios que decidiram abandonar-me e deixar-me sem chão, no natal de 2015. 5 meses passaram desde que eles me deixaram de apoiar financeiramente. Não me falam, nem me retribuem as chamadas que lhes fiz, Ignoram-me, não só eles, mas todos os familiares como se eu alguma vez existisse. É triste, mesmo muito, mas a vida é para a frente, se não querem saber de mim para nada, manifesto o mesmo sentimento para com eles, e faço de tudo para seguir com a minha vida em frente.  
 

 

S: Como te sentes sabendo que os teus pais te abandonaram devido à tua orientação sexual?

A: Custa não ter aquele aconchego, sentir-se posto de parte, tudo por causa de algo que faz parte de mim "ser homossexual" e isso não me define, nem faz de mim uma má pessoa! É triste ter 20 anos (e ainda muito pela frente) ninguém imagina o que é ficar sem família do dia para a noite, e ter a vida num enorme reboliço como aconteceu comigo. Os meus pais chegaram a colocar-me substancias na comida para eu andar sedado e inclusive recorrer a artes do oculto (bruxarias) para me reconverter à força, e isso está errado e não se faz.

 

S: O que gostarias de lhes dizer neste momento?

A: Família não se lembra apenas dos seus quando estes fazem anos, isso para mim não vale nada... Ainda existem pessoas que teimam que a família gosta de mim, eu tenho a certeza de que se gostassem mesmo de mim, não é só no dia em que eu nasci, que se lembram, mas sim todos os dias. Eles deixaram de se importar comigo, deixaram-me da mão e completamente desamparado, sem casa e sem dinheiro. Pobres seres que não sabem enxergar o que realmente importa: “ser feliz” e estar bem com quem se ama. Pessoas e mais pessoas neste mundo imenso…querem lá esses seres saber de mim, se importar verdadeiramente comigo, me dar o devido valor que mereço, reconhecer a grande pessoa que eu sou, e a minha parte humana, esquecer os meros detalhes da minha intimidade pessoal. 

 
Prefiro esquecer que alguma vez tive família, e seguir a minha vida em frente com quem está ao meu lado, o resto já não importa. Até porque para mim, família jamais são pessoas que fazem aquilo que me fizeram, ao ponto de me tentarem me reconverter e proferir coisas inadmissíveis, do género: "As putas vão para a rotunda, agora tu não sei para onde vais", "Paneleiros", "Filhos da puta", e outras... Inclusive cheguei a sofrer violência física da parte do meu pai também, uma vez deu-me uma estalada, outra arrastou-me pelo chão e quase partia a perna, chegou a ameaçar destruir o meu pc em mil bocados. A descoberta da minha morada, do meu telefone fixo, e ter recebido uma prenda surpresa no meu vigésimo aniversário podia bem ter sido escusada, não precisava de nada, e isso de obterem o meu paradeiro de forma ilegal e condenável. Se ninguém, ninguém se lembra de mim nunca, desde que vim para cá. Primos/as, tios/as, não vou ser eu a preocupar-me que eles existem pois só falam quando necessitam de algo. Não preciso de pessoas assim na minha vida! Isto já lá vem desde 2012 e até agora não tem sido nada fácil, tendo piorado ao longo do tempo, pelo que mais vale esquecer, nem os consigo considerar como pais, mas sim progenitores.

 

S: Sentes saudades deles? Ou revolta?

A: Uma ligeira revolta pelo facto de como pode um pai e uma mãe fazer aquilo que eles me fizeram durante este tempo todo! Mas acima disso sinto pena por estes seres serem incapazes de ver o que há de belo em mim. Não há ganhos na vida sem sofrimento, aprendemos a nos tornar-mos mais fortes, e mais maduros. Quanto à família, a única que tenho tido mais perto de mim, tem sido os meus amigos e o meu namorado, tendo este feito mais por mim do que eles a vida inteira. A família de sangue que esperava dignamente que me respeitasse, apenas me mata aos poucos e poucos, e puramente isto: Não me interessa falar com esses seres, nem ter nada a ver com esses seres. Se esses seres alguma vez me respeitassem jamais tinha pensado em sair de casa e deixar tudo para trás, para poder ser eu próprio e ser feliz. 

 
Um fenómeno estranho e horrível que aconteceu, foi quando a minha mãe se decidiu meter com um "ex" meu, para saber a minha vida toda, ele inclusive foi um mentiroso e disse que me dava dinheiro para pagar as contas e que eu recusava, quando isso foi a mais completa mentira... e lá andou ele a contar à minha mãe tudo o que eu dizia ou fazia! Quando soube de tal história a única coisa que lhe disse foi: "É triste tu desceres a um nível tão baixo, e te meteres no facebook com alguém que tem idade para ser teu filho para andares a escarafunchar a minha vida toda!”
 
Em outubro de 2015 uma situação de saúde grave com a minha mãe levou-me à terrinha. Pensei que algo assim, provavelmente iria pôr a cabeça minha mãe no seu lugar, passando a respeitar-me, estava redondamente enganado. Continuou a mesma de sempre, durante este tempo todo. Lá em casa, no fundo das gavetas da minha cómoda, descobri rituais de bruxaria, feitos contra mim na minha roupa que lá ficou, fiquei horrorizado e fiz questão de documentar tudo. Custa-me a crer que durante este tempo todo desde 2012 ela não aprendeu absolutamente nada! Continua a desrespeitar-me como sempre o fez!

Com essa ida também descobri que a família alguma vez entenderá o porque, de eu ter saído de casa e abandonado os estudos, porque a minha palavra vale zero, e o problema é ser assim como sou, homossexual, dizem que não vou casar, que não vou ser nada, que sou um brutamontes, que sou um estúpido, e nunca vou ser alguém na vida! E cheguei à conclusão que não vale a pena, custou imenso estar uma semana com aquelas pessoas retardadas e hipócritas.

 

S: Algum dia haverá espaço para o perdão?

A: Sinceramente isso irá ser muito complicado e acho que impossível, as mágoas e as marcas ficam para a vida inteira.

É uma vergonha os meus pais continuarem a culpar os outros por aquilo que acontece, dizerem mal de tudo e todos, um dia irão acordar para a realidade mas aí será bastante tarde demais…Tiveram ajuda várias vezes e recusaram, não posso obrigar as pessoas a mudar, cada um vê o que quer ver, e como quer ver. Chega a um ponto em que nos apercebemos que a causa pela qual lutamos não vale a pena, e mais vale desistir. Eu fiz aquilo que podia, mas quando as pessoas não estão dispostas a ouvir o outro, a tentar entender, quando não há meio de comunicação e vem com sete pedras na mão, não há volta a dar.
Inclusive uma das psicólogas que me seguiu, que até hoje foi a única pessoa capaz de dizer à minha mãe sem papas na língua: "Você não aceita o seu filho, se continuar assim vai acabar por perdê-lo", e teve toda a razão até hoje.  A minha mãe tendo a mentalidade que tem ficou contra e proibiu-me de ir às terapias, disse que ela não era psicóloga nenhuma, disse que tem tinha arranjado a psicóloga não era boa da cabeça (uma prima minha)...  Chegou até a insinuar que a psicóloga era lésbica e que não era profissional de saúde nenhuma e que iria apresentar queixa.

 

S: O que dirias a alguém que, neste momento, está a passar pela mesma situação?

A: É preciso determinação, ser-se muito mas muito forte, ter a coragem para enfrentar tudo e todos, lutar para poder vencer na vida.

E um dia, mostrar a todos que tornaste-te em alguém com família, filhos, trabalho e realização e conseguiste fazer o teu caminho.
Aquilo que me fizeram foi tão mau, mas tão mau, que me deixou marcas irreversíveis, mas por outro lado ajudou-me a crescer em pessoa e em ser, aprendi a ser mais sorte, a perceber que o mais importante não é ter o armário cheio de roupa cara, e bens materiais, mas sim amor, carinho, amizade, e coisas que às vezes nos parecem fúteis, aqueles pequenos detalhes mas que fazem a diferença no dia a dia de alguém.
Nunca desistam, só não há solução para a morte. Tenham uma boa rede de amigos, procurem ajuda nas associações existentes em Portugal tal como a ILGA-PORTUGAL e a AMPLOS para vos tentarem ajudar no que puderem. Eu gostava que mais ninguém passasse por aquilo que passei, e vou dar o meu contributo e o melhor de mim ao mundo para torná-lo num local melhor, mais inclusivo e agradável.
Quem quiser pode seguir-me no facebook https://www.facebook.com/blogomeumundo/ e esteja à vontade para falar comigo se precisar, não hesite.
 
 
Obrigado André. Força!
20
Mai16

À conversa com... André Mendonça (parte 1)

Sr. Solitário

André Mendonça, 20 anos, homossexual assumido. Os pais descobriram a sua orientação sexual e não reagiram nada bem. A partir daí, foram dias de ofensa, humilhação, agressão física e psicológica, até ao ponto de ter que fugir de casa.

André Mendonça foi um dos rostos do programa "E se fosse consigo?", onde contou a sua história. Eu não poderia ficar indiferente a esta história. Apresento-vos o André, aqui sem filtros, num "À conversa com..." especial.

 

Solitário: Olá André, bem vindo. Em primeiro lugar, eu começava por te perguntar, com que idade é que descobriste que a tua orientação sexual é diferente?

André: Olá Sr. Solitário. Desde muito cedo, que me sinto “diferente”, especial comparativamente às outras pessoas, desde a entrada na primária, por volta dos 6 anos. Com o tempo, o corpo cresce e transforma-se, havendo imensas mudanças. Aos 12/13 anos deu-se a confirmação de que era homossexual, por me sentir atraído por rapazes e não por raparigas como a norma padrão. Apenas aos 16 anos, por fins de novembro, inícios de dezembro de 2012, conheci uma pessoa especial, um rapaz... que apareceu de repente na minha vida, […] contei-lhe os problemas tinha, […] falámos de ser criticados pelas pessoas, eu disse-lhe que sempre fui muito criticado por gente tola, sem carácter nem decência alguma, e que de facto, isso me magoava imenso. Ele também me disse que tinha sido criticado imenso e sofrido por ser homossexual dado que gostava de rapazes e não de raparigas...
Ao ter-me dito isso, sei lá, fez-se luz no meu interior... vi que tinha uma pessoa amiga ao meu lado, igual como eu, mas assumida. A grande conversa que tivemos ajudou-me imenso, foi importante ele partilhar o seu exemplo de vida pois isso deu-me força, coragem, vontade de contar quem eu realmente era, e não pôr mais paninhos quentes neste assunto da minha orientação sexual. Foi então que ganhei coragem e contei-lhe, ele foi a primeira pessoa a quem falei sobre isto que estava tão escondido de todos. Ele compreendeu-me e ajudou-me a perceber que não havia nada de errado comigo só por gostar de rapazes, a aceitar-me enquanto pessoa normal como todos os outros, a admitir perante mim que era assim e realmente podia ser feliz! Ele foi sem dúvida um grande suporte para a minha saída do armário. Deste o dia em que o conheci, já consegui admitir perante mim aquilo que sou e de quem gosto.

 

S: Nunca falaste sobre isso com ninguém?

A: "Em certas alturas, passamos a perceber coisas que se encontravam invisíveis aos nossos olhos, de certa forma encobertas por um medo tão grande, nós tínhamos deixado essas coisas ali jogadas para um canto, e sempre que essas coisas nos ocorriam na cabeça, mudávamos logo de atitude, tentávamos evita-las ao máximo que podíamos. Porém como tudo, chega a um ponto em que se não consegue evitar mais (…) e, para nossa surpresa há alguém muito parecido connosco que nos dá uma enorme coragem, força interior, motivação, sei lá talvez aquilo tudo, que nós precisávamos para dizermos, admitirmos aquilo que sabemos há muito, que guardamos dentro de nós até hoje … porque temos alguma vergonha e muito medo, medo de admitir, de como as pessoas vão reagir, medo de não sermos aceites e respeitados pelos outros, tal e qual como nós somos.
As pessoas deste mundo têm a inteira tendência para criticar e dizer mal de tudo, as pessoas não pensam nos outros, pensam apenas nelas mesmas. 
Será que é assim tão difícil para as pessoas respeitar os outros como são?”

Por ter vivido a infância e adolescência num meio pequeno como a Ilha da Madeira, escondi-me durante muito tempo, porque sabia a família que tinha e tentei evitar este assunto de ser homossexual ao máximo. Já o descobri há uns aninhos, por volta de 2008, tendo na altura 12 anos, e desde aí que comecei a explorar o meu corpo, e senti-me atraído por rapazes. Nunca falei com ninguém sobre isso, por medo, por achar que ia perder as pessoas que eram minhas amigas, que me amavam, por saber que não ia ser aceite por todos, quanto mais pela família. A minha situação de bullying iria piorar ainda mais... e não queria que isso acontecesse, fui guardando, guardando...até não poder mais!

 

S: Sofreste algum tipo de bullying na escola, ou fora dela, por seres "diferente”?

A: Imenso. Desde o 5º até ao 9º ano sofri imenso de bullying e até hoje em dia ainda há gente que me critica tanto. Nessa altura chamavam-me “gay" e gozavam imenso comigo, passei um grande mau bocado principalmente no 9º ano. Só que eu não entendia o porquê de me chamarem isso e de me tratarem como me trataram, eu sempre tentei impor à minha mente que tinha de gostar de raparigas e não podia gostar de rapazes, ou dos dois, eu na altura não percebia porque me faziam isso. As pessoas não tinham o direito de fazer o que me fizeram. Fui humilhado, maltratado, espezinhado, sei lá ... As pessoas chamavam-me de gay, mas eu nunca tinha admitido tal coisa perante ninguém, eu guardei sempre isso para mim durante uns anos. Terminei o 9º ano, mudei de escola já devido a episódios de bullying constante desde o 5º ano. Escola nova, pessoas novas, aparentemente tudo correria bem... Até que a certa altura começo a ver a minha vida a andar para trás: lá começaram outra vez os episódios de bullying também no secundário.

 

S: Queres partilhar algum episódio do qual foste vítima?

A: Cheguei a ser ameaçado na escola com uma navalha e um isqueiro, os colegas de turma colocavam pioneses nas cadeiras, vezes sem conta, chegaram até a entornar-me uma garrafa de leite para cima da roupa com o propósito de me humilhar e enxovalhar em plena sala de aula.
Numa aula de Matemática de 12º ano, estávamos todos num auditório e íamos ver um filme. Entrámos todos, sentámos-nos e, como sempre, chegaram aquelas pessoas atrasadas. Posteriormente, a professora não estava a conseguir colocar correctamente o filme porque as legendas estavam a ficar cortadas...e perguntou: “Quem é que percebe disto? Vocês são de informática certo? Alguém que me venha aqui me ajudar que eu de informática não percebo nada!”. Ninguém na sala se voluntariou… Até que ouço dizerem “Vai lá tu, Engenheiro!" (esse era o meu apelido lá na escola), eles costumam sempre “empurrar” tudo para cima de mim! E então lá fui eu... [...] Depois começamos a ver o filme, e a certa altura apareceu um rapaz sem t-shirt (e estava a mostrar o corpo do rapaz, eu até estava olhar e apreciar porque ele era lindo e tinha um bom corpo) e esse meu colega mandou uma piadinha (como sempre para pegar comigo e me criticar) achando-se o maior. Via-se o peito do rapaz depois continuou-se a ver o resto para baixo, e quando chegou perto de mostrar a cintura ele disse: “É melhor que a câmara não desça mais senão o Engenheiro fica teso! Olha tem cuidado!” e depois todos começaram a rir e a gozar de mim, eu fiquei tão passado nessa altura, só me apetecia dar-lhe uma estalada, fiquei com uma raiva e ira... apeteceu-me tanto chorar (mas tentei controlar) e fugir dali o mais rápido que conseguisse! Mas não, enchi-me de coragem e respondi-lhe (num tom grosseiro e bem direto para todos ouvirem) : “Já paravas com a piadinha antes que tenhas um processo disciplinar na secretaria da educação...” , começaram a gozar mais e a me imitar a dizer isso... fiquei tão fulo! A professora ouviu, e disse-lhe que devia respeitar toda a gente, e que pareciam autênticas crianças, que já tinham idade para saber respeitar as diferenças dos outros...” E o meu colega respondeu para toda gente ouvir: “Ah, eu odeio paneleiros! Detesto gajos que levam no rabo!” e outro colega meu ainda lhe disse: “Está calado, não armes mais confusão! E se tivesses uma amiga que fosse lésbica ias a desprezar só por isso?” E ele: “Sim! Detesto gays!"

Noutra aula de Educação Física estávamos a leccionar a modalidade de basebol e a professora mandou-me fazer de catcher (quem apanha as bolas), e certos colegas disseram para mim: “Ah, vai lá apanhar as bolas, tu só gostas é disso, seu vadio! Não fazes nada nas aulas… só gostas de estar sentado e  só gostas é de levar no rabo e de leitinho, não é, seu cabrão?”  Estavam sempre a gozar e a mandar bocas, sempre a me massacrar e estou farto, pelos cabelos! Fiquei com um trauma no desporto devido ao bullying passado desde há alguns anos, relembro-me de tudo o que eu passei em pequenino, e entro em modo depressivo. Depois as pessoas não me sabem integrar, metem-me sempre de parte, colocado a um canto. Sempre foi assim... E depois começam a gritar comigo, dizendo que eu não sei jogar e que não jogo direito, e gozam comigo, tudo aliado  ao facto de não me sentir bem nos balneários com os rapazes. No 11º e 12º tive atestado médico a Educação Física (dado os problemas de saúde que tive à nascença). Fazer aquelas aulas para mim era uma tremenda tortura psicológica! Foi horrível todo este processo…

 

S: Como te sentias ao ouvir esses insultos?

A: Sentia-me frustrado, arrasado, injustiça por as pessoas não se preocuparem minimamente com os outros que estão à sua volta, com o bem-estar dos outros, e com o que episódios constantes de bullying podem causar a um jovem já frágil. 
Acabei por abandonar a escola em Janeiro de 2014, ficando apenas com o 11º ano completo para todos os efeitos. Isto devido ao facto de a situação ter chegado ao limite do que aguentava e não suportar mais a pressão psicológica tanto em casa como na escola, ter de encarar aqueles brutamontes todos os dias... Estava na altura de pôr o meu ponto final, quanto para mais eu sabia que a escola não estava minimamente interessada em defender os meus direitos.
 
 
S: Alguma vez pensaste em desaparecer?
A: Sim algumas vezes, mas descobri que se o fizesse os problemas iriam continuar, teria de fazer algo por mim e enfrentar as adversidades como elas são.
 
 
S: Quando contaste aos teus pais, qual foi a reação deles?
A: Infelizmente não tive a hipótese de contar, e se a tivesse tido a minha intenção seria guardar o segredo mais uns anos, porque desde cedo soube que não iriam saber respeitar-me e aceitar-me. Os meus pais acabaram por descobrir porque invadiram a minha privacidade e o meu intimo acabando por descobrir o segredo da pior maneira em dezembro de 2012.
Tudo aconteceu quando eu estava na sala. Como estava sozinho, aproveitei para ver umas fotos de rapazes nus no tumblr, e a minha mãe, tendo a mania de controlar tudo aquilo que eu faço, decidiu espiar-me e apareceu por trás do sofá e viu o que eu estava a fazer. A primeira reacção dela foi ficar em choque.
 
 
S: Quais foram as palavras ditas que mais recordas nesse dia?
A: Recordo-as como se fosse hoje… as palavras proferidas pela minha mãe: “ Mas o que é isso que estas para aí a ver? Que pouca vergonha! És a vergonha da família! Não tens vergonha de ser assim? Não me faças, nem eu, nem o teu pai passar vergonhas! Pelo teu irmão não faças uma coisa dessas!" (Irmão este que não se encontra com vida, morreu a nascença e é inadmissível os meus pais usarem o meu irmão para me demover de gostar de rapazes). As coisas foram piorando: “Tu só gostas é de levar no cú! Devias é levar com a comichão das urtigas! Tu não prestas, és tonto, és uma vergonha! E quem foi que te meteu isso na cabeça?”
“Homens são homens, não são gatos!”; “Uma pessoa por ter uma tatuagem, piercing, gostar de homens ou mulheres, não é considerada sociedade nenhuma, é a coisa mais horrível que existe, é a podridão do mundo”, “Isso não são pessoas, não são nada!”
Chegando ao extremo de dizer-me: “É melhor pegares numa arma e matares os teus próprios pais, assim já ficas livre de nós, já que é isso que queres! É melhor isso do que dizeres que és paneleiro! Só por uma gaja ter-te dado com os pés, tu viras-te!”. 
Com o passar do tempo vieram  outras expressões: "Filho, eu quero que tu sejas como o pai diz!” ; "Esses filhos da puta, esses paneleiros” ; “Esses amigos com quem tu andas, tens de mudar o rumo da tua vida! Assim não vais chegar longe!” ; "Não sei o que vês num homem, uma mulher tem tanto para dar a um homem, bem como um homem tem tanto para dar a uma mulher! Experimenta e vais ver como é bom!” ; "Pensei que tu eras meu amigo e gostavas de mim, não sei que tempestade vai na tua cabeça, eu ao pé de ti até me sinto um cachorro, por tu não gostares de mulheres!” ; "Tu tens de pensar na tua vida e apenas um dia mais tarde (30 anos) quando já trabalhares e ganhares é que podes estar com quem quiseres e fazeres o que bem entenderes!” ; "Já é tempo de parares com essas coisas, não tens vergonha!? Já te disse para estudares, não é para andares a ver meninos!”.
 
 
S: Nenhum outro familiar te apoiou?
A: Alguns familiares tentaram de todo ajudar e apoiar, mas tal não foi possível dada a mentalidade dos meus pais, que culpam os outros por tudo o que acontece, e ninguém quis saber.
É triste não ter família… Ser julgado e rotulado como se fosse um produto de supermercado com um código de barras... doí imenso ver que passados vinte anos, todos aqueles que te viram crescer, que lutaram por ti, que supostamente "sempre te amaram" simplesmente desligam-se, esquecem que alguma vez exististe, fazem de conta que não te conhecem... que tu já não lhes és nada, que não perdura nenhum sentimento.
Custa que os outros finjam que se importem, isto porque não houve ninguém capaz de chegar à frente e proteger-me e gritar “BASTA!!!”. Deixaram-me sofrer no meio da selva, ninguém se preocupou com o meu estado físico e psicológico, apenas estavam preocupados com possíveis guerras se me tentassem ajudar. É triste quando estás num buraco e ninguém é capaz de enfrentar as feras e tirar-te dali, na altura nem o CPCJ quis saber do meu caso...
 
 
S: Foste viver para onde?
A: Ansiava imenso que o dia D chegasse o meu décimo oitavo aniversário. Peguei nas minhas poupanças, e durante a semana seguinte tentei planear a minha vida para Lisboa com todo o cuidado para que ninguém desse por nada, como se estivesse num filme de investigação cientifica.
O  tempo foi passando, e tentei planear as coisas ao pormenor para não ficar nada esquecido... Durante algum tempo sempre disse que um dia me viria embora, nunca referenciei quando, sabia se o fizesse provavelmente me iriam tentar impedir, e aprisionar-me num local onde já não me sentia seguro nem poderia estar de maneira alguma.
O dia da libertação chegou, levantei-me de madrugada, sem fazer muito barulho e decidi vir-me embora, pé de fininho aqui e ali sem fazer o menor barulho, fechei a porta de casa, e decidi pôr-me a caminho do aeroporto para apanhar o primeiro voo da manhã.
Estava nervoso, mas por um lado feliz e liberto, como nunca estive porque sabia que finalmente iria para um sitio onde podia ser eu sem complexos, frustrações e limites, vivendo a minha vida, não escondendo quem sou eu de verdade.
Cheguei a Lisboa às oito da manhã, e estava um dia solarengo, como se todo o sofrimento tivesse sido transformado em luz, e fosse o renascer!
 
 
Continua...

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