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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

29
Mai17

Escondo-me em palavras

Sr. Solitário

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O mundo agita-se lá fora. Há sempre um burburinho no ar, abafado pelas janelas, que corta o pesado silêncio que as paredes enrugadas da minha casa carregam. Todas elas são testemunhas da minha solidão, são elas que amparam os meus golpes de desespero, são elas que calam o meu choro. Se fossem notificadas por um qualquer tribunal dos sentimentos, onde eu me sentava na cadeira do réu, estas paredes eram a prova mais fidedigna da minha culpa.

 

Sento-me no sofá da sala com um livro nas mãos, abro-o e sou invadido pelo conforto das palavras, elas abraçam-me o corpo esguio, levantam-me e levam-me para onde elas querem ir. E eu deixo-me levar.

Conheço várias pessoas, variadas personagens que as palavras do livro me apresentam, e sinto que a minha solidão se desvanece aos poucos, transformando-se num sentimento quase inexistente. Vivo tantas aventuras, presencio tantos momentos, que de tão singelos que são me trazem de novo à vida, àquela vida que eu quero viver.

Porém, as palavras começam a dançar num ritmo que não compreendo perante os meus olhos já de si cansados, tenho que parar e fechar o livro, voltar para a minha clausura.

 

Reparo que o mundo lá fora não parou enquanto estive ausente, o burburinho continua, eu é que não o acompanhei. Não me importo - penso com um encolher de ombros - prefiro mil vezes a vida que se passa nos livros do que viver a minha própria vida.

Fecho as cortinas, entregando a casa mais uma vez à escuridão, e nela permaneço até que tenha vontade de ler novamente.

 

 

26
Mai17

Passadiços do Paiva

Sr. Solitário

Ontem à tarde fui até aos Passadiços do Paiva pela primeira vez. O tempo estava mais ameno, pelo que foi mais fácil galgar os 8km de pleno esplendor, sempre em contacto com a natureza.

Não consigo transmitir em palavras tudo aquilo que vivi durante duas horas e meia. Então, vou deixar as palavras de lado, e passo às fotografias que tirei que espero que sejam tão bonitas quanto àquilo que o meu olhar albergou. Não são muitas, aliás todas as fotografias que reuni nunca serão suficientes para mostrar a beleza de tamanho local.

Recomendo vivamente a visita.

 

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22
Mai17

Sede de amor

Sr. Solitário

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Vivemos numa sociedade sedenta de amor. Corpos desidratados, ressequidos  e mirrados, procuram desesperadamente uma gota de afeto num mar salgado de amargura e angústia. Como são tolos aqueles que tentam enganar a própria mente, comprando a felicidade a preço de saldo, reconfortando o coração com migalhas de momentos fugazes. O amor deixou de ser um sentimento simples, agora é uma joia rara de difícil acesso, e qualquer imitação, uma reles bijuteria, é perfeitamente aceitável.

 

Como eu gostaria de oferecer milhares e milhares de frascos como este a todos os que comigo se cruzam, apregoando um produto milagroso, para consumir com moderação! Bastava retirar delicadamente a rolha de cortiça e sentir a doce fragrância do amor, aquela que preenche as lacunas da nossa alma, que nos arranca sorrisos e suspiros de satisfação.

Contudo, tudo isto não passa de mais uma ilusão. O amor, essa joia invulgar finamente trabalhada, não se vende e não se oferece, apenas se sente. Qualquer semelhança com outro sentimento é apenas mais uma falsificação.

 

18
Mai17

Um novo ciclo

Sr. Solitário

Sou apologista da citação que nos diz que nada acontece por acaso na nossa vida. Acredito no destino, por mais voltas que tentemos dar, por muito que nos percamos nos atalhos, no fim acabamos sempre por voltar ao caminho que ele nos traçou, é inevitável.

A vida prega-nos rasteiras, é certo e sabido, em consequência disso muitas vezes caímos desamparados no chão, pedimos ajuda para nos levantar mas nenhuma mão se estende na nossa direção. Sentimo-nos perdidos, injustiçados, amargurados.

 

Também eu, tal como todos vocês, já passei por diversas situações que me abalaram e empurraram para um buraco negro do qual não se vê uma única luz. Então eu penso: já que bati no fundo, agora não me resta outra alternativa senão erguer-me, subindo degrau a degrau as escadas da minha vida, que me levarão de volta ao caminho de onde caí.

Para trás vou deixando alguma da bagagem que carrego: aqueles tecidos de memória mais pesados, aquele colar de pérolas negras que sufoca as angústias, os sapatos velhos que apertam as emoções, as recordações que me causam sofrimento.

 

Com uma mala mais leve e com uma alma mais limpa, subo os degraus mais rapidamente em direção ao meu objetivo: ser feliz! Quando chego de novo ao caminho, trago comigo um escudo de aço protetor, bem reluzente, é ele que me defenderá de novas ameaças. E, então, mais forte sigo o percurso que o meu destino traçou, com um sorriso num rosto vitorioso.

É um novo ciclo que começa e eu quero vivê-lo intensamente.

 

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16
Mai17

31

Sr. Solitário

Ouço uma melodia ritmada que me contagia com os seus acordes. Tamborilo os dedos no braço da minha poltrona aveludada, sentindo o peso da coroa na minha cabeça que me obriga a uma postura direita e o roçagar do manto que me adorna o corpo esguio.

Todos cantam e dançam, riem e divertem-se no salão extremamente polido do meu castelo, num baile consagrado em minha honra.

 

Os meus pais segredam-me para convidar uma jovem moça para dançar, já está mais que na hora de casar e constituir família, mas não tenho a mínima vontade de o fazer.

A minha vontade era de dançar com um jovem rapaz, de me rir e de me divertir com ele, mas o protocolo não o permite. Apenas contemplo-o com o olhar, a forma como toca o piano com os seus dedos ágeis e precisos, ao mesmo ritmo que os violinistas.

 

Estou a sonhar, tenho plena consciência disso, mas quero prolongar este sonho o mais que conseguir. Pois hoje é o dia do meu aniversário, posso sonhar nem que seja só por hoje.

 

Fazer 31 anos, é mesmo literalmente um 31!

 

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11
Mai17

Fátima

Sr. Solitário

"Foi aqui, nos braços desta azinheira, que a Nossa Senhora de Fátima apareceu aos três pastorinhos" - disse-me a minha mãe defronte de uma grande árvore que dançava ao sabor de uma leve brisa, ladeada por gradeamento.

Estávamos em Fátima, tinha eu os meus 10 anos, mais ou menos, e contemplava aquela azinheira embasbacado, deixando a imaginação colocar imagens na minha cabeça de como aconteceu o grande milagre, há muitos anos atrás.

 

A viagem tinha sido muito demorada. Saímos cedo de casa, ainda a noite era cerrada, e lembro-me que a minha impaciência tornou-me numa criança irritada, farto de estar sentado durante horas no assento traseiro de um automóvel.

Quando chegamos, observei todo o recinto com um olhar curioso, totalmente siderado pela magnificência daquele local. Imensas pessoas dispersavam-se, tirando fotos, passeando e rindo, algumas com velas acesas, outras de joelhos com terços nas mãos a entoar as suas orações enquanto cumpriam as suas promessas.

 

Fazia um calor abrasador nesse dia! A minha mãe também tinha uma promessa por cumprir, fê-la desesperada aquando de uma doença que poderia matar-me; dar duas voltas de joelhos na Capelinha das Aparições, de mão dada comigo.

Senti-me importante nesse dia, como um protagonista de um filme emocionante, de mão dada com a minha mãe que cumpria a sua promessa penosamente, um milagre que Nossa Senhora me concedeu e me salvou.

 

No fim, também eu rezei defronte da Capelinha das Aparições. Pedi a Nossa Senhora que me concedesse a graça de ter uma vida melhor, pedi que acabasse a guerra no mundo e que matasse a fome às crianças de África.

Quando nos preparávamos para partir de regresso a casa, olhei mais uma vez para a azinheira, disse-lhe adeus baixinho e prometi que regressaria um dia. E regressei.

 

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09
Mai17

Já não te reconheço

Sr. Solitário

Já não te reconheço. Abro várias gavetas nos meus pensamentos em busca de uma feição, de um gesto, de um carinho que me faça lembrar de ti, mas encontro-as vazias. O teu retrato que guardava bem junto ao meu, na minha mesa de cabeceira, foi rasgado e colocado no lixo num momento de raiva e de frustração. Dele já não restam mais vestígios. O meu permanece sozinho, coberto com uma fina camada de pó, devolvendo-me um sorriso inocente roubado pela lente de uma máquina.

 

Procuro em todos os cantos algo a que me agarrar, talvez mais alguma foto para rasgar, um objeto para destruir... alguma coisa que liberte este desespero que não quero gritar, esta ânsia de fazer justiça com as próprias mãos, num ato de loucura! Quero encontrar-te, ou melhor dizendo: quero encontrar a pessoa que sempre foste para mim e que agora já não és.

 

Este não és tu, já não te reconheço, e eu não sei lidar com esta perda que me consome. Sinto-me sozinho e tenho vontade de chorar.

 

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08
Mai17

À conversa com... a Gaffe

Sr. Solitário

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Desde 2009 esta blogger abre-nos as gavetas da sua vida, partilhando connosco memórias, desabafos, e tudo aquilo que adorna as suas avenidas, sempre com um toque de humor. Aceitou prontamente este desafio que lhe propus, e hoje está aqui neste espaço, sem filtros.

Hoje estou à conversa com... a Gaffe.

 

A palavra exacta é "superficial". Uma rapariga esperta sabe como ninguém que as tolices fúteis são autênticos temperos nestes nossos assados, cozidos e grelhados. Basta utilizar a dosagem certa e não exagerar na malagueta.

 

Solitário: Olá, bem-vinda ao meu espaço. Começo por te perguntar: porquê o nome Gaffe?

Gaffe: Olá! Obrigada por me receberes.

Não sei exactamente porque escolhi Gaffe para encimar o que escrevo. Provavelmente era a palavra que estava na minha frente quando decidi criar as Avenidas, mas quero acreditar que foi por sugestão de um amigo muito querido. Todas as minhas gaffes são atribuídas a amigos meus...

 

S: Criar um blog, no meio de tantos outros, foi um "erro"?

G: Foi um Impulsivo. Nenhum dos meus impulsos se traduziu até agora num erro. No momento exacto em que o considerar como tal, ou seja, um erro, as Avenidas serão inundadas e submersas. Embora a Gaffe se aproxime cada vez mais de mim - e tantas vezes correndo alguns riscos -, continua a proteger-me e a reservar-me. É uma rapariga esperta e, como todas as raparigas deste calibre, sabe que não interessa o que se diz, mas o modo como é dito.

 

S: Passeando pelas tuas avenidas, o que podemos encontrar?

G: Pequenas confissões, alguns desabafos, paisagens emocionais, lenha para atirar à fogueira, muita tolice e um ligeiro sabor a piroso. Nada mais. Não sou de cuidadas escritas e nunca garanti qualidade, mas vou lavrando palavras que enchem o espacinho de bonecada. Se uma quantidade imensa de gente arranja tempo para criar um bicho destes, tenho a certeza que também a vou acompanhar. Sou uma rapariga que dá valor às multidões.

 

S: Entre as tuas gavetas digitais podemos encontrar vários temas. Alguma gaveta ainda permanece escondida e fechada?

G: Muitíssimas! Há um manancial de segredos fechados a sete chaves que a Gaffe se vai encarregando de desvendar. O melhor está para vir, tenho a certeza. Recordo, no entanto, que em cada gaveta que abro, há outras que permanecem dentro por abrir.

 

Gosto dos áceres no Outono. Gosto de árvores que enlouquecem como os poetas.

Não gosto do cheiro das pipocas. Impede-me de respirar e de ir ao cinema.

 

S: Quem é o Gui?

G: Provavelmente vou desenrolar um manancial de barbaridades, por não conhecer o terreno que deu origem ao Gui, mas vou tentar explicar o que não entendi muito bem quando me entregaram o “menino”. O Gui começou por ser uma “experiência” da responsabilidade de um ilustríssimo amigo, investigador na área da Literatura Comparada. Não me pertencia e nem sequer tinha nome. Não passava de um estudo no âmbito da linguística. Procurava-se encontrar e medir a influência de diferentes ritmos de leitura, de distintas formas de se respirar, de diversas cadências e pausas no evoluir da leitura, no entendimento da obra que se lê. Após os resultados, um dos “bonecos” que serviram de “tubo de ensaio” - uma criança produtora de textos sem pontuação, de tema aleatório, muitas vezes sem nexo aparente, claramente infantis - seria abandonado, por ter cumprido a sua função com honra e distinção. Foi-me proposto adoptar e desenvolver esta criaturinha. Aceitei. Agora chama-se Gui e continua a escrever as suas “redassões”. É um menino que lê o Universo através das letras que dão corpo ao seu mundo minúsculo.

 

S: Que mensagem pretendes passar com a criação desta personagem?

G: Nenhuma! Sou demasiado nova para ter a veleidade de transmitir seja o que for e demasiado velha para esperar que todas as mensagens sejam interpretadas sem as alterações subjectivas de cada um dos seus receptores que as moldam àquilo que desejam sentir ou que no momento lhes é conveniente. Depois - olhemos para os velhos romanos -, o mensageiro acaba sempre morto. Se olharmos para à frente, vemos que os mensageiros estão todos mortos e as suas mensagens estão enfeitadas com florinhas criadas pelo Photoshop.

 

S: A dor da perda dos teus avós continua eminente. Qual a proporção desse buraco negro que se instalou no teu peito?

G: Não sei responder.

 

S: A luta silenciosa contra a dor é mais difícil de superar?

G: Sinto e sei apenas que o silêncio que faço é a única forma de honrar os que perdi. Nada, absolutamente nada, dignifica tanto a Dor como o silêncio. Creio que este silêncio específico é Deus a chorar. As manifestações histriónicas do sofrimento nunca me convenceram. Provavelmente é um defeito meu. Lembram-se sempre a Ágata – a maravilhosa Ágata - a choramingar.

 

Gosto de pérolas. Provam-me que às vezes é uma agressão que provoca a claridade.

Não gosto do Verão nos dias em que até a sombra tem sol. As ruivas trazem na pele a memória do escuro mais frio que as escondia dos caçadores de bruxas.

 

S: O que gostavas de lhes dizer neste momento?

G: Foi tudo dito. Não ficou rigorosamente nada por dizer. O que não encontrou o som das palavras, foi adivinhado. É patético acreditar que falhamos porque ficaram palavras por dizer. Revela apenas a nossa incapacidade de reconhecer que o amor é também um diálogo completo.

 

S: Ser mãe não está nos teus planos. Tens receio de não ser uma boa mãe ou medo do mundo onde elas viveriam?

G: Não. O problemazinho é outro. Não sou uma galinha de “óvulos de ouro”. Não posso ter filhos. As hipóteses colocadas não chegam sequer a ser consideradas por mim.

 

S: Porque te consideras uma Gaffe bimba? [risos]

G: Porque comprei uma Bimby há muito pouco tempo e ainda estou em modo bimba perante os milagres desta máquina. Refiro contudo que ser-se bimba é entrar em piloto automático. Não custa nada e vamos onde nos apetece sem qualquer preocupação. É relaxante.

 

S: A Gaffe não é uniformizada. O que te difere dos demais?

G: A Gaffe gosta muitíssimo de uniformes masculinos, não esqueçamos.

No entanto, e para contornar a questão sem grandes delongas, ser ruiva é bastante distintivo.

 

Gosto dos telhados de Paris e dos socalcos do Douro, porque só os pássaros os entendem.

Não gosto de baratas e de morcegos. As primeiras sobrevivem mesmo sem cabeça, os segundos enredam a cegueira nos nossos cabelos. Há gente que resulta de um cruzamento entre as duas espécies.

 

S: A Gaffe foi criticada num momento muito peculiar. Queres contar-nos como?

G: Já não me lembro! Fui?! O momento não devia ter sido assim tão peculiar, a não ser que nos estejamos a referir à ocasião em que dei por mim a ser observada no monitor de um PC, num café esquecido, por duas personagens fabulosas. Nesse instante fiquei a perceber que podemos encontrar Fellini em qualquer esquina da nossa vida.

 

S: Como é que a Gaffe lida com as críticas?

G: De formas distintas. As relativas à minha vida profissional e pessoal são recebidas com atenção, humildade e algum embaraço quando são positivas - ao contrário do que é rumor, não sou arrogante, sou parisiense. As que acreditam que disparam obuses, decido que não existem ou, se muito ruidosas, que usam o penteado de Kim Jong-un.

 

S: Contudo, a Gaffe sente-se cansada. Haverá um limite de caracteres para a personagem por ti criada?

G: Os únicos limites que a Gaffe conhece são os traçados pelo meu carácter.

 

S: Qual o rabisco que nunca apagarias na tua vida?

G: A palavra “rabisco” é aqui polissémica e dificulta a resposta. Os rabiscos que traço nas Avenidas podem ser apagados sem qualquer dano ou malefício. Todos os que vou traçando na vida são indeléveis.

 

Gosto do silêncio. Sobretudo do silêncio que se sente nas memórias que nos falam.

Não gosto de homens que pintam o cabelo. Não se pode confiar em alguém que se engana dessa forma, acreditando que convence os outros. Também não gosto do Dr. Passos Coelho pelas razões idênticas.

 

S: "tu és a guardiã das emoções." Um peso difícil de carregar?

G: Não sei se o “título” está bem entregue. Não sei sequer se o “cargo” pode ser por mim desempenhado com a alma que requer, mas alguém tem de ficar com o trabalho pesado, não é?!

Todos somos guardiões das emoções, só que alguns são apenas carcereiros.

 

S: Alguém te deve um pedido de desculpas?

G: Não. Todas as pessoas que são vítimas do meu amor, sabem pedir desculpa. Quando me pedem desculpa provam em simultâneo que lhes sou importante. Saber ouvir pedir desculpa justifica a importância que me dão.

 

S: Dentro do estojo da tua vida há um lápis para escrever o teu futuro, uma borracha para apagar o passado, uma régua para medir as alegrias, um compasso para desenhar o teu mundo e uma caneta para escrever em ti um nome difícil de apagar. Qual destes objetos usas? Porquê?

G: Nenhum, porque a arquitecta é a minha irmã – “eu é mais bolos” - e os nomes que trago em mim, impossíveis de apagar, não foram gravados por mim, mas por quem amo.

 

Obrigado Gaffe, foi um gosto enorme conversar contigo.

 

04
Mai17

José - Capítulo 2

Sr. Solitário

Acordei com o barulho de vozes. Pus-me à escuta para tentar perceber se se tratava do pai novamente a discutir. Não era. As vozes que ouvia eram de duas mulheres que estavam a conversar mesmo na porta de entrada. Uma era da minha mãe e a outra… ah sim! A outra era da senhora Micas, a nossa vizinha.

Desci as escadas pé ante pé e sentei-me no último degrau a ouvir a conversa que se desenrolava a escassos metros dali.

— Olha Isaura, eu nem sei o que te diga mulher! Tens que aguentar, ele é o teu marido, não podes fazer nada. Deus Nosso Senhor há de te ajudar.

— Ele não é mau homem. O que o faz ser assim é o maldito vinho! Se ao menos ele parasse de beber… Tenho a certeza de que seria um homem completamente diferente.

— Ai o meu Joaquim só bebe mesmo um copito de vinho ao almoço e outro ao jantar. O médico proibiu-o de beber mais! Ele tem o… o… ai como é que se diz? O calestrol muito alto!

O Sr. Joaquim era um homem gordo, de barriga proeminente, que estava sempre a suar. Já o tinha visto por diversas vezes na tasca do Sr. Constantino e, certo dia, quando estava a caminho de casa, ele fez-me prometer que nunca contaria à senhora Micas que o tinha visto lá. Era um bom homem, mas também ele tinha uma sede infinita. “Tenho que abastecer aqui o tanque” – dizia-me ele batendo na barriga.

— Bem, senhora Micas, eu tenho de ir para dentro para preparar o pequeno-almoço e mandar o Zé para a escola. Obrigada pelo leite.

— Ah não tens de quê mulher! Deus me dê muita fartura que ao menos leite não te vai faltar a ti e ao teu filho.

— Obrigada.

Quando a minha mãe entrou de novo em casa, viu-me e quase deu um salto de susto. Levou uma mão ao peito, respirou fundo para se recompor, e olhou-me depreciativa.

— Que estás aí a fazer? Já não te disse muitas vezes que é feio escutar a conversa dos outros?!

— Cheguei agora mesmo, mãe – menti.

Olhei-a com mais atenção e reparei na grande nódoa negra que manchava o seu rosto do lado direito. Todo o meu estômago revolveu-se, senti ganas de correr escada acima e desferir um valente murro na cara do meu pai que ainda dormia, daqueles que deixam uma grande marca vermelha na pele, depois dizia-lhe que nunca mais se atravesse a bater na minha mãe, porque eu zangar-me-ia a sério! Porém, tudo não passava de ilusões, também eu tinha medo dele.

Ela pareceu notar a tristeza que vagueou pelo meu olhar, e devolveu-me um sorriso doce, a sua forma de dizer que estava tudo bem - quando na verdade estava tudo mal -, como se fosse um código secreto que só eu entenderia.

— Despacha-te que eu não quero que chegues atrasado à escola – disse, quebrando o silêncio que se tinha estabelecido entre nós, tão pesado como grilhões.

 Bebi uma caneca de leite bem cheia, tão depressa que vários pingos me desceram para o queixo e, depois de expirar uma nuvem de vapor, limpei-os à manga da camisola.

No andar de cima, o meu pai escarrou para o chão ruidosamente, gemendo com uma possível ressaca que o obrigaria a permanecer deitado durante mais umas horas, acabando por só ir trabalhar da parte da tarde, o que sucedia quase todos os dias. Perguntava-me quanto tempo mais é que o seu patrão, um velho rezingão de meia-idade, suportaria toda esta situação. O meu pai possivelmente iria ficar sem emprego e eu nem queria pensar nas consequências que isso acarretava.

Peguei na minha sacola de serapilheira onde transportava os meus cadernos e algum material escolar, e saí para o ar fresco da manhã convidativo. A minha mãe ficou na porta a acenar-me até a perder de vista. Assim, recortada com os primeiros raios de sol, de avental axadrezado, com uma grande mancha escura a sombrear-lhe o rosto, não pude deixar de reparar que ela era a mulher mais linda e mais doce do mundo inteiro, até mais bela que a Maria, mesmo estando marcada na pele e na alma.

 

A escola primária da aldeia de Senhor da Serra estava situada perto da igreja. Era um edifício ao estilo do Estado Novo, com três grandes janelas e uma porta de madeira em arco. No recreio alguns dos meus colegas jogavam à bola, gritando passes e marcando golos numa baliza imaginária e delimitada por pedras. Quando um golo era marcado com mestria, os rapazes vangloriavam-se entre as raparigas do seu feito, e elas soltavam risinhos de satisfação.

No interior da escola, várias mesas e cadeiras, pregadas a chão, perfilavam-se diante de um quadro de lousa negro com uma fina camada de pó de giz. Ao cimo, três símbolos alinhados, bem representativos do país: uma fotografia do Dr. Oliveira Salazar, outra do Presidente General Carmona e um crucifixo mesmo ao centro, em concordância com o Estado Português e a Igreja Católica.

Quando cheguei, o meu amigo Carlos, filho da proprietária da mercearia local, abeirou-se de mim com uma mão atrás das costas.

— Adivinha o que eu trouxe hoje – disse-me com um ar divertido e a língua a espreitar-lhe do canto da boca.

— Chocolates? – perguntei.

Ele revirou os olhos agastado com a minha resposta.

— Não! Melhor do que isso.

— Hum… não sei! – respondi, desistindo daquele jogo de adivinha.

A mão que estava escondida atrás das costas revelou-se por fim, e nela continha um saco cheio de bolas transparentes e cintilantes.

— Berlindes – revelou com o rosto iluminado de alegria.

— Uau! – exclamei – depois deixas-me brincar com eles?

— Claro, é para nós jogarmos todos no intervalo.

Esfreguei as mãos de contentamento. Eu era um ás no jogo dos berlindes, houve uma altura em que tinha um saco carregado deles que conseguira ganhar aos meus colegas, depois de ter encontrado apenas um esquecido no recreio da escola.

Quando soou a sineta, informando-nos de que as aulas iriam começar, todos corremos para a entrada e, ordeiramente, entramos na sala onde o professor já nos aguardava com o seu semblante fechado.

O professor Teixeira era um homem temeroso. Vestia sempre fato e gravata, os sapatos de verniz reluziam à conta de uma grande quantidade de graxa, e uns óculos redondos conferiam-lhe um ar mais intelectual. O cabelo era sempre penteado para o lado com brilhantina e tinha um fino bigode bem aparado.

— Bom dia – grunhiu enquanto escrevinhava freneticamente num pequeno caderno de capa dura.

— Bom dia, senhor professor – respondemos em uníssono.

— Podem sentar-se.

A ordem foi dada e todos o obedecemos com o burburinho habitual do arrastar das cadeiras. O Carlos, com quem dividia a carteira, guardou cuidadosamente o saco dos berlindes na sacola para não chamar a atenção do professor e não correr o risco de ficar sem eles, numa lista interminável de objetos por ele confiscados.

O professor fechou o caderno em que estava a tomar as suas notas e, resignado com mais um dia de aulas que tinha pela frente, dirigiu-se à turma com a sua voz grossa e firme.

— Hoje a aula irá ser de Língua Portuguesa, mas primeiro quero ver e corrigir os vossos trabalhos de casa. Toda a gente fez, certo?

Todos assentiram com a cabeça e eu estaquei. Esqueci-me completamente dos trabalhos de casa por causa da brincadeira com a Maria que durou a tarde inteira, estava metido num grande sarilho!

— José? Não ouviste o que eu disse?

— Ah… eu… eu não fiz os trabalhos de casa, senhor professor – acabei por responder.

O rosto do professor endureceu ainda mais.

— Porquê?

— A minha mãe está doente e eu tive que cuidar dela – menti.

— Estás a mentir-me, José! Ontem vi a tua mãe e ela pareceu-me de perfeita saúde.

Baixei o olhar, envergonhado, e preparei-me para o pior. Haviam vários castigos para os aulos que não faziam os trabalhos de casa e até mesmo para aqueles que erravam os cálculos de matemática e apresentavam erros nos ditados. Acima de tudo, para aqueles alunos que mentiam quando eram apanhados, o castigo era ainda mais severo.

— Chega aqui à minha secretária imediatamente!

O Carlos e os meus outros colegas olharam-me penosamente enquanto me levantava e me dirigia em passos lentos até à secretária do professor para levar o castigo merecido.

— Depressa! Eu não tenho o dia todo – vociferou.

Quando cheguei perto dele, um sorriso sagaz aflorava-lhe nos lábios. Parece que o que o deixava realmente bem-disposto era castigar severamente os alunos que não cumpriam as suas ordens.

— Estende a mão – ordenou e assim fiz.

Da gaveta da secretária, o professor Teixeira retirou uma palmatória escura, com cinco buracos na sua cavidade. A menina dos cinco olhos.

Com uma mão sobre os meus dedos, esticou a minha palma até ela ficar branca e com as marcas bem visíveis, e com a outra ergueu a palmatória acima da cabeça, preparando-se para me bater. Num impulso retirei a minha mão e escondia-a atrás das costas para fugir ao golpe. O professor Teixeira puxou-me pelo braço e num gesto brusco voltou a pôr a minha mão no mesmo lugar.

— Se voltas a fazer o mesmo, levas ainda mais! – disse num tom de voz ameaçador.

 A primeira batida estalou com um ruído que percorreu toda a sala em silêncio onde os meus colegas observavam expectantes. Abafei um grito que se formou na minha garganta e obriguei-me a engoli-lo. A segunda batida foi dada ainda com mais força e a minha respiração tornou-se pesada. Na terceira, algumas lágrimas espreitaram pelos cantos dos olhos quando os fechei na tentativa de me abstrair.

Levei vinte palmadas, dez por cada castigo. No fim, quando voltei à minha carteira tinha a mão dormente, e bem no meio da palma, cinco olhos avisavam-me que da próxima vez não me podia esquecer dos trabalhos de casa.

Tal como a minha mãe, também eu estava marcado.

 

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