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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

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23
Mai16

A aletria da minha avó

Sr. Solitário

Não sei se é por causa do tempo que se tem sentido, ainda frio, ou se das saudades que sinto de tempos mais antigos, ontem apeteceu-me comer aletria. Quente, doce, com canela... uma maravilha!

 

Então, arregacei as mangas e decidi fazê-la eu. Mas como eu cá em casa não tenho balança, a coisa não correu lá muito bem, pois tive que a fazer a olho. Quer dizer, não correu assim tão mal, faltava era um pouco mais de açúcar. Contudo, já deu para matar um pouco as saudades. Repeti três vezes!

 

Isto fez-me recuar um pouco nas minhas memórias até a um passado, não muito longínquo, em que a minha avó fazia a melhor aletria do mundo.

Visitava a minha avó regularmente, fazia quilómetros a pé (na altura não tinha carro) para a ir ver e estar um pouco com ela. Sabia-me tão bem todo o carinho que me dava, toda aquela preocupação que tinha sempre para comigo.

Parece que ainda a consigo ouvir nos meus pensamentos a dizer-me, mal eu chegava, "eii Hélder, tu estás tão magrinho! Anda fazer uma sandes. Tenho aqui queijo do bom, que tu gostas!" Ah! Aquelas sandes sabiam-me tão bem! Ainda lhes consigo sentir o gosto.

 

Mas do que eu gostava mais era da aletria que ela fazia. Disse tantas vezes "avó, o que me apetecia mesmo era um prato de aletria acaba de fazer!". E ela prontificava-se logo para a fazer. "Faço já um tacho cheiinho para comeres até não poderes mais! Mas cuidado, que ela quente faz-te mal."

Eu não ligava ao que ela dizia e comia quase meia travessa sozinho. Ela ria-se, e dizia para eu voltar no outro dia que, se fosse preciso, fazia mais aletria para mim.

 

Hoje a minha avó sofre de Alzheimer. Já não se lembra de ninguém, nem de mim, do seu neto mais querido. Nunca mais chamou pelo meu nome e certamente que nunca mais o irei ouvir da voz dela.

Visito-a sempre que posso. Ela já não consegue caminhar, está sentada na cadeira, outras vezes no sofá, olhando o vazio, aquele olhar sem expressão, sem alma. Pego-lhe na mão e afago-a, dou-lhe carinho, retribuindo todo aquele que ela me deu desde que nasci. Sinto essa necessidade.

Por vezes, pego na mão dela e acaricio-a no meu rosto. A minha carência é muito grande!

 

Certo dia perguntei-lhe "avó, você da-me uma sandes?" e ela respondeu-me "dou sim senhora!". Mas eu não a comi, ela não passava na garganta. Saí de perto dela por uns momentos, e chorei como um menino chora com saudades da avó.

 

Tenho a certeza que no coração dela, todos nós estamos lá. Ela pode não lembrar-se, o cérebro dela está cansado, mas ela ainda nos consegue sentir, e ama-nos como sempre amou, até ao fim da sua vida.

 

Saudades avó, saudades da tua aletria, e do teu carinho.

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