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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

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15
Jul16

À conversa com... A Mula

Sr. Solitário

Mula.jpg

 

Algures, num curral qualquer no meio da cidade, nasceu uma Mula que, um dia, decidiu criar um blog, partilhando assim os seus contos e desencontros, as suas viagens, os seus livros...

Senhoras e Senhores, aumentem o som, pois a Mula informa que hoje está "À conversa com...".

 

Ora bem Sol, antes de mais muito obrigada pelo convite. É um prazer sentar-me no teu cantinho e ser entrevistada por ti, que és realmente um grande entrevistador. É realmente uma grande honra, muito obrigada pela oportunidade. Como muitos saberão sou uma jovem mulher de 28 anos, recém casada e com uma paciência um tanto limitada para situações parvas, mas também com um grande coração. De  mim cada um recebe o que quer e o que escolhe, sou uma grande amiga, mas também posso ser muito má com quem me maltrata, sou muito pouco tolerante a faltas de respeito. Assim sou eu, e aqui estou sem filtros no "À conversa com..."

 

Solitário: Olá, bem vinda. Porquê Mula?

Mula: Olá Sol, obrigada. Mula, porque tenho um feitio fantástico! [Risos] A verdade é que às vezes consigo ser muito mazinha e o Mulo – que é Mulo por eu ser Mula – quando estava chateado comigo chamava-me – e ainda me chama – de Mula. Um dia, chateada com ele decidi criar um blog – há muitos anos atrás no wordpress – e como eram os meus desabafos e eu era a Mula assim ficou, Desabafos da Mula.

 

S: Algum leitor usou esse teu pseudónimo como pejorativo?

M: Sim, já aconteceu. Em tempos tive uma leitora, que apesar de nada o fazer prever, se insurgiu totalmente contra mim, chamando-me de mentirosa, porque achava que um conto que eu tinha escrito era sobre mim – e não era, efetivamente – e aproveitou e decidiu usar o meu pseudónimo de uma forma bastante negativa, dizendo que eu era uma grande Mula por ser má pessoa - apesar de não me conhecer de lado algum - e que o meu curral cheirava muito mal e blá blá blá. Eu, felizmente desvalorizo totalmente estes incidentes, porque na verdade só me importo e preocupo com as opiniões de quem gosto e me é importante, e como tal não foi uma situação que me tenha causado algum tipo de stress ou perturbação, mas foi, e é sempre, desagradável. Não me importo muito  com o que dizem de mim, mas acho que ninguém gosta de ser acusada de mentiras e de coisas que não somos...
 

S: Consideras-te uma pessoa bastante frontal. O que já disseste frontalmente e logo te arrependeste?

M: [suspiros] Digo muitas coisas das quais me arrependo, não por não serem verdadeiras, mas porque às vezes não meço as palavras e magoo as pessoas sem querer magoar. Dou-me lindamente com a minha mãe, mas ela é muito inocente e tem comportamentos que eu por vezes desaprovo. Basicamente não perco uma oportunidade para a chamar atenção de um comportamento errado, porque é para o bem dela, mas sei que às vezes a deixo triste e logo me arrependo e penso para comigo: não deveria de ter dito isto. Digo-lhe muitas vezes que ela vê a vida de forma muito errada e ela acredita muito nas pessoas e eu sou a primeira pessoa a dizer-lhe "vais-te desiludir com A ou B" e ela "não", mas depois acaba a dar-me razão, mas até lá acabo por pensar "ela é adulta, não me deveria de meter na vida dela!", mas acabo sempre a meter-me!...
 

S: Mesmo assim, alguma coisa ficou por dizer a alguém?

M: Claro que sim, fica sempre muito por dizer a muita gente, às vezes porque simplesmente as pessoas não valem o meu latim, outra vezes porque simplesmente não estou para me chatear, uma coisa é certa, quanto menos a pessoa me importa mais eu ignoro e menos falo, quanto mais gosto da pessoa, mais cruelzinha sou, mas é porque acho que é para o bem das pessoas... Ou então para me defender, defendo-me sempre com unhas e dentes, aí nunca deixo nada por dizer.

 

Gosto de sol, porque me deixa bem disposta. Não gosto de chuva, odeio sentir a cara e os pés molhados.
 

S: Tens um blog sobre cozinha, onde publicas várias receitas. Qual a tua especialidade?

M: Eu devo ter uma costela italiana. [risos] A minha especialidade são as massas, todos os ingredientes que tenho em casa são sempre uma grande oportunidade para experimentar uma massa nova, e adoro experimentar massas diferentes, com sabores, como a de azeitonas, a picante, a de caril, ... Sim, efetivamente eu um dia irei transformar-me num prato de massa gigante! [risos]

 

S: Algum prato que não correu tão bem, não sendo digno de publicação?

M: Sim, tenho as minhas desgraças culinárias, ou porque me esqueço da comida no fogão e deixo queimar, ou experiências com sabores desastrosos. Os desastres recentes foram um pudim que não solidificou, e uma pavlova que me desapareceu no forno, salgados é mais difícil correr mal, mas às vezes também acontece, lembro-me por exemplo de um caldo verde que ficou alaranjado porque exagerei na quantidade de chouriço que coloquei. Esse caldo verde apesar de delicioso daria uma foto horrível!... [risos]

 

S: Quem segue o teu blog percebe o quão gostas de viajar. Qual a tua viagem de sonho?

M: Tenho assim um sonho utópico de dar a volta ao mundo, e o meu grande objectivo de vida é conhecer o maior número possível de países. Mas focando-me numa só viagem, tenho de referir a Turquia, mais que Nova York ou Austrália. Tenho o sonho de ir à Turquia, mas com o clima de instabilidade devido ao terrorismo o sonho vai continuar a ser adiado... Mas continuarei a sonhar com uma viagem de balão na Capadócia, ou um mergulho nas Pamukkale [suspiros].

 

S: O que correu mal na tua relação com o teu pai?

M: Pois não sei... [suspiros] acho que fui rejeitada desde que nasci. A verdade é que a minha mãe engravidou por acidente e o meu pai casou com ela por ela ter engravidado e talvez por isso nunca nos tenhamos dado bem. O meu pai era uma pessoa muito egoísta que apenas pensava nele próprio, era uma pessoa muito bruta, muito autoritário, tudo era motivo de discussão. Não podíamos - nem eu nem a minha mãe - usar saias curtas, andarmos muito arranjadas, que ele dizia que isso era comportamento de prostitutas e não de meninas de bem. Como a minha mãe era uma pessoa muito passiva aceitava tudo sem ripostar, e eu não tolerava que ela aceitasse tudo e mais alguma coisa, e era eu que a defendia - alguém tinha de o fazer, não é verdade? [lágrimas] - e acho que sempre me viu como alguém que o enfrentava... Nunca lhe fui muito submissa. Falo de violência psicológica, o meu pai nunca bateu na minha mãe e a mim, bater a sério, quase a roçar o espancar só aconteceu uma única vez - por não ter lavado um tupperware [suspiros] - mas foi traumático porque foi à porta de casa com os vizinhos todos a ver... Mas como fiz as malas para sair de casa isso não voltou a acontecer. Sempre lhe fiz frente. Por exemplo houve uma altura que cismou com o Mulo, e queria mandar-me para a aldeia para me afastar dele, e eu disse que isso nunca iria acontecer. Ameaçou-me que me mandava para o hospital, e eu ameacei-o com a polícia. Acho que ele odiava que eu não tivesse medo dele, que era isso que ele gostava que as pessoas tivessem. Depois as coisas acalmaram porque ele teve muitos anos a trabalhar no estrangeiro e o pouco tempo que ele estava cá as coisas corriam bem. A gota de água foi quando eu descobri que o meu pai tinha ido para o Brasil com uma brasileira - e nós a pensar que ele estava a trabalhar no Algarve... [suspiros] - e contraiu dívidas e fui eu que invadi a conta de e-mail dele e que contei tudo à minha mãe, e então sempre me acusou de ser a culpada do divórcio.  Ele era uma pessoa sem noção... E depois do divórcio tentou prejudicar muito a minha mãe, roubou-lhe e vendeu todo o ouro que tinha, coisas antigas que tinham pertencido à minha avó... [suspiros] Foram tempos muito complicados, e eu cheguei a odiá-lo... Acho que ele também me odiou muito!

 

Gosto muito de gelados porque me deixa fresca e de bom humor. Não gosto do escuro, tenho pavor do escuro porque tenho medo de ver coisas que não consiga explicar.

 

S: Sentes que ele te deve um pedido de desculpas?

M: Já não... [suspiros] Eu neste momento não sinto nada por ele, não sinto saudades, não sinto rancor, nem ódio. Em tempos senti que ele me devia tudo e mais alguma coisa, porque ele nunca foi um pai preocupado, um pai com o qual eu pudesse contar, e sentia que ele me devia um pedido de desculpas mas ele sofreu muito antes de morrer, e acho que me senti vingada. Atenção que apesar de me sentir vingada não me sentia feliz, longe disso. Ver o meu pai no estado de dependência que vi foi algo horrível, e fez-me baixar a guarda e por muito que me custasse ir vê-lo ao IPO eu fui... e acho que cheguei a ver arrependimento nos seus olhos... [lágrimas] E acho que de certa forma o perdoei. Com a morte dele senti silêncio, silêncio e tranquilidade, finalmente eu e a minha mãe pudemos ficar em paz. Deixei por isso de procurar respostas e/ou justificações.

 

S: Ele já não está entre nós. O que gostarias de lhe dizer?

M: Isto de não sentir nada faz com que eu não tenha nada para lhe dizer. Acho que ao longo da vida já lhe disse tanta coisa que o ideal é não dizer mais nada... Em tempos quis compreender o motivo de ele não gostar de mim, ele disse que gostava e eu não acreditei, hoje simplesmente não quero saber... Estou bem, estou em paz, é o que importa. [sorriso]

 

S: Qual a tua relação com a tua mãe?

M: A relação com a minha mãe é fantástica. Passou por uma crise muito grande quando eu ainda era adolescente, passei por umas fases complicadas onde cheguei a fugir de casa... Ai a adolescência... [risos] mas quando eu saí de casa aos 20 anos ficamos muito unidas, e quase não somos mãe e filha, mas sim duas amigas. Falamos de tudo, trocamos roupas, e digo-te... Às vezes sou eu mais mãe dela do que ela minha. [risos] A minha mãe neste momento é uma verdadeira adolescente e eu às vezes passo-me com ela! Mas fica sempre tudo bem. [risos]

 

S: Muitas lágrimas se juntam quando conversam?

M: Não. Somos as duas muito choronas mas tanto ela como eu odiamos chorar na presença de pessoas, sejam elas quem forem. Mas uma coisa é certa, lágrimas não há, mas há muitos risos, que quando estamos juntas a casa vem abaixo! [muitos risos].

 

Gosto de praia porque me deixa relaxada e me faz descansar. Não gosto de sentir adrenalina, deixo de sentir as pernas e parece que o meu coração vai parar a qualquer momento.

 

S: Herdaste dela muitas qualidades, inclusive a sensibilidade. Quais as coisas dolorosas que te sentes incapaz de esquecer?

M: Eu tenho um grande problema - e também ela o tem - posso perdoar muita coisa mas não consigo esquecer. E tanto não esqueço uma atitude banal como a não devolução de um livro, como uma atitude mais grave, como uma traição. A dolorosa das dolorosas... A mentira! Não suporto que me mintam. Se me mentem uma vez, toda a vida vão levar com um "mas da outra vez mentiste...", efetivamente não consigo esquecer uma mentira por muito que até a consiga perdoar!

 

S: O que é um Educador Social?

M: Sabes que esta era uma pergunta que fazíamos constantemente aos nossos professores e eles nunca nos conseguiam responder? [risos] Mas... Muito resumidamente, um educador social é, um mediador social que tem como propósito ajudar os sujeitos a integrar-se em sociedade, que por alguma razão vivem à margem. Normalmente trabalha numa equipa multidisciplinar e deve promover o bem estar dos indivíduos. Não é competência de um educador social dizer a um indivíduo o que é que este deve fazer com a sua vida, mas antes ajudá-lo a encaminhar a vida num outro sentido, se essa for a sua vontade. Regra número um do educador social, o educador nunca impõe nos outros a sua vontade - como acontece muito com os assistentes sociais - só os sujeitos é que podem querer mudar, e são os sujeitos que sabem o que é melhor para si. O educador não impõe, só apoia e dá ferramentas para as pessoas conseguirem alcançar a mudança. Podemos trabalhar com crianças e jovens em risco, com idosos, com prisioneiros, com desempregados, com minorias étnicas.... Podemos fazer muita coisa, e não podemos fazer nada na realidade porque é uma área que em Portugal não há investimento. [suspiros] Ou seja, há muito trabalho para se fazer, muitas pessoas que necessitam de "educação" mas não há contratações de equipas de apoio.

 

S: Alguma vez te arrependeste de tirar essa licenciatura?

M: Não. Aprendi muito com o curso. Aprendi não só para a profissão mas para a vida, aprendi a ser melhor pessoa e a eliminar muitos dos preconceitos que possuía. O curso é quase um curso de autoconhecimento, com muitas cadeiras de evolução pessoal, como é o caso do Sociodrama e de Desenvolvimento Pessoal e Social, onde testávamos os nossos limites pessoais e sociais e onde descobríamos coisas sobre nós que não sabíamos, porque nunca tínhamos pensado muito nisso. Eu por exemplo aprendi a confiar. Quando iniciei o curso não conseguia fazer aquele jogo de me atirar e o meu colega me suportar antes de cair... Não sei se sabes qual é... Acabei o curso a conseguir fazer isso de olhos fechados, mas isso implica um grande trabalho do professor - que neste caso era uma professora que era terapeuta - e empenho dos alunos. Tive também aulas de teatro, de expressão motora, e estagiei em três âmbitos totalmente diferentes, foi realmente um curso muito rico.

 

S: Sentes-te inferior, ou menos realizada, por trabalhares atrás de um balcão de uma loja?

M: Não me sinto inferior, porque tenho um trabalho honesto e ganho o meu dinheiro sem depender de ninguém, mas sinto-me efetivamente menos realizada. Sinto-me triste por ter estudado tanto tempo, por sentir que tenho vocação para trabalhar com pessoas e estar confinada a um balcão a ganhar 500€ por mês. Sinto-me ainda mais frustrada porque tentei entrar para mestrado e nem aí me aceitaram apesar de ter concluído o meu curso com quase 17 valores de média - para o ano quero voltar a tentar mas já não tenho esperanças [suspiros]. A verdade é que tenho capacidades para mais e estou num trabalho que não me permite evoluir - a não ser  a nível linguístico - e acima de tudo monetariamente... É que se eu ficar sem emprego o Mulo consegue segurar as contas, mas o contrário já não é verdade e isso às vezes faz-me sentir um pouco inútil, confesso.

 

Gosto de música porque consigo expressar-me mais facilmente através dela. Não gosto de silêncio, porque tenho pavor da solidão.

 

S: O dia 19 de junho de 2016 foi o dia mais importante da tua vida?

M: Sem dúvida que sim. [sorriso] O dia mais importante e mais feliz da minha vida! Apesar de não mudar nada - e mudar tanto.... - porque já moramos juntos há 8 anos,  a verdade é que sempre foi o meu sonho, e apesar de não ser o sonho dele foi maravilhoso ver-lhe o sorriso aberto estampado no rosto quando eu entrei e ver o nervosismo dele, porque os nervos significam preocupação e só nos preocupamos quando queremos, quando amamos. Fui a noiva mais feliz do mundo e até um tio dele disse "Só para ver esse sorriso, já valeu a pena ter cá vindo! Nota-se que estás mesmo feliz!" [lágrimas]

 

S: O que sente uma noiva quando diz o sim?

M: [suspiros] Olha.... [risos] Não faço ideia! É um turbilhão de sentimentos que não se explicam. A mão dele tremia, a minha mão tremia, parecíamos dois virgens inocentes com medo da noite de núpcias apesar de já estarmos juntos à 13 anos e dividirmos casa à 8.

 

S: O Mulo é o homem da tua vida? Consegues explicar porquê?

M: O Mulo é mesmo o homem da minha vida! Não sei explicar muito bem porquê até porque somos os dois muito diferentes. Mas completamo-nos e eu tenho muito orgulho nele. Ele é a pessoa mais inteligente que eu já conheci e compreende-me como ninguém. Não precisamos de falar para sabermos o que o outro está a pensar e a sentir, o que é ótimo quando queremos gozar com alguém para esse alguém não perceber [risos].

 

S: Pensas que serás uma boa mãe? Do que tens medo?

M: Confesso que estou bastante ansiosa para ser mãe o relógio biológico há muito que tilintou [suspiro]. Creio que vá ser uma boa mãe, tive um excelente exemplo e acho que isso é meio caminho andando. Agora... Claro que tenho muitos medos [suspiro], medo de não conseguir dedicar todo o tempo que desejo, medo de não conseguir lidar com a minha falta de tempo... [suspiro] Eu sou bastante preguiçosa, adoro dormir até tarde, se estiver sozinha, muitas das vezes não cozinho e isso tem de acabar, e temo não conseguir assimilar bem tudo isso. Tenho também medo de não ter paciência... Apesar de tudo acho que ter medo é saudável porque quer dizer que nos importamos, que nos preocupamos.

 

S: És feliz?

M: Eu tenho uma opinião muito própria sobre o conceito de felicidade. Eu não sou feliz porque para mim a felicidade não existe. Tenho muitos momentos felizes – mais felizes do que tristes – mas também tenho os meus momentos em que me apetece mandar tudo para o ar, desaparecer e recomeçar tudo de novo. Mas estou bem com a generalidade da minha vida, adoro o homem que tenho do meu lado, tenho uma casa minha, sou independente financeiramente, mas seria mais feliz – ou teria momentos mais felizes – se tivesse um emprego mais estável e mais desafiante, se tivesse uma casa maior e se tivesse mais tempo e mais dinheiro para fazer aquilo que gosto [suspiros]. Agora... não consigo ser propriamente feliz aprisionada numa rotina que odeio, e limitada por um salário que não me satisfaz. Quando olho para uma montra e vejo uma carteira – ou outra coisa qualquer - lindíssima que não está ao meu alcance, não sou feliz, apesar de existirem criancinhas em África a passar fome e eu ter uma dúzia de carteiras em casa... Mas sou muito feliz quando os meus pés tocam na água do mar e vejo o rebentar das ondas. Sou feliz quando tenho a companhia perfeita e um pôr-do-sol à frente. Sou feliz quando chego a casa depois de um dia de trabalho e não sou eu a fazer o jantar. Mas sou imensamente infeliz quando me recordo que falta um elemento muito importante na família [lágrimas], que apesar de ser apenas um gato como muitos dizem, era um filho para mim e não há um único dia que não sinta tristeza quando chego a casa e não o encontro, quando obviamente não o encontro. Isto pode parecer muito mal, mas senti muito mais a morte do meu gato que a morte do meu pai... Mas adiante [lágrimas], sou muito fácil de fazer feliz, sou uma mulher de gostos muito simples e grande fã de gestos bonitos mas por outro lado sou uma mulher que desanima com alguma facilidade, que se entristece com a mesma facilidade com que sorri... Vivo por isso no limbo da felicidade.

 

S: O que consideras indispensável na tua vida?

M: O amor. Tirem-me tudo mas não o amor, acho que não sei não amar. Imagino-me a viver contando os tostões e a não conseguir fazer nada do que gosto por falta de dinheiro, desde que tenha comigo amor, mas não me consigo imaginar ser rica e a viver sozinha sem amor. Acho que amar e ser amado é meio caminho andado para se ser feliz. Viva a teoria de um amor e uma cabana.

 

S: Na tua opinião, enquanto educadora, qual é a coisa mais importante que uma pessoa pode aprender?

M: O respeito pelo outro. Quando há respeito pelo outro, tudo o resto vem por acréscimo, quando não há respeito... Então não há nada.

 

S: Dentro do estojo da tua vida há um lápis para escrever o teu futuro, uma borracha para apagar o passado, uma régua para medir as alegrias, um compasso para desenhar o teu mundo e uma caneta para escrever em ti um nome difícil de apagar. Qual destes objetos usas? Porquê?

M: Nomes difíceis de apagar já tenho demasiados, quem me dera conseguir apagar alguns [suspiro]; desenhar o meu futuro com um compasso também estaria fora de questão que um compasso é demasiado rígido e gosto de surpresas e acho que linhas mais tortas também fazem parte, se a vida fosse tão linear seria um verdadeiro aborrecimento; não uso a régua para medir as alegrias que acho que a felicidade não está ao alcance de um medidor. Fico assim em dúvida entre uma borracha para apagar da memória algumas partes do passado ou um lápis para escrever o futuro... Porque no futuro é que está o caminho, acho que gostaria de escrever algumas coisas – não tudo que caso contrário a vida perderia a piada – mas escreveria alguns desejos de olhos fechados na esperança que se concretizassem, como a viagem à Turquia por exemplo!

 

S: Obrigado Mula, foi um gosto enorme conversar contigo.

M: Obrigada eu por esta oportunidade. Puseste-me a pensar muito em muitas coisa, fizeste-me suspirar e choramingar mais do que desejaria, mas as dúvidas e as lágrimas também fazem parte da vida e sem elas não evoluiríamos, certamente.

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