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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

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20
Mai16

À conversa com... André Mendonça (parte 1)

Sr. Solitário

André Mendonça, 20 anos, homossexual assumido. Os pais descobriram a sua orientação sexual e não reagiram nada bem. A partir daí, foram dias de ofensa, humilhação, agressão física e psicológica, até ao ponto de ter que fugir de casa.

André Mendonça foi um dos rostos do programa "E se fosse consigo?", onde contou a sua história. Eu não poderia ficar indiferente a esta história. Apresento-vos o André, aqui sem filtros, num "À conversa com..." especial.

 

Solitário: Olá André, bem vindo. Em primeiro lugar, eu começava por te perguntar, com que idade é que descobriste que a tua orientação sexual é diferente?

André: Olá Sr. Solitário. Desde muito cedo, que me sinto “diferente”, especial comparativamente às outras pessoas, desde a entrada na primária, por volta dos 6 anos. Com o tempo, o corpo cresce e transforma-se, havendo imensas mudanças. Aos 12/13 anos deu-se a confirmação de que era homossexual, por me sentir atraído por rapazes e não por raparigas como a norma padrão. Apenas aos 16 anos, por fins de novembro, inícios de dezembro de 2012, conheci uma pessoa especial, um rapaz... que apareceu de repente na minha vida, […] contei-lhe os problemas tinha, […] falámos de ser criticados pelas pessoas, eu disse-lhe que sempre fui muito criticado por gente tola, sem carácter nem decência alguma, e que de facto, isso me magoava imenso. Ele também me disse que tinha sido criticado imenso e sofrido por ser homossexual dado que gostava de rapazes e não de raparigas...
Ao ter-me dito isso, sei lá, fez-se luz no meu interior... vi que tinha uma pessoa amiga ao meu lado, igual como eu, mas assumida. A grande conversa que tivemos ajudou-me imenso, foi importante ele partilhar o seu exemplo de vida pois isso deu-me força, coragem, vontade de contar quem eu realmente era, e não pôr mais paninhos quentes neste assunto da minha orientação sexual. Foi então que ganhei coragem e contei-lhe, ele foi a primeira pessoa a quem falei sobre isto que estava tão escondido de todos. Ele compreendeu-me e ajudou-me a perceber que não havia nada de errado comigo só por gostar de rapazes, a aceitar-me enquanto pessoa normal como todos os outros, a admitir perante mim que era assim e realmente podia ser feliz! Ele foi sem dúvida um grande suporte para a minha saída do armário. Deste o dia em que o conheci, já consegui admitir perante mim aquilo que sou e de quem gosto.

 

S: Nunca falaste sobre isso com ninguém?

A: "Em certas alturas, passamos a perceber coisas que se encontravam invisíveis aos nossos olhos, de certa forma encobertas por um medo tão grande, nós tínhamos deixado essas coisas ali jogadas para um canto, e sempre que essas coisas nos ocorriam na cabeça, mudávamos logo de atitude, tentávamos evita-las ao máximo que podíamos. Porém como tudo, chega a um ponto em que se não consegue evitar mais (…) e, para nossa surpresa há alguém muito parecido connosco que nos dá uma enorme coragem, força interior, motivação, sei lá talvez aquilo tudo, que nós precisávamos para dizermos, admitirmos aquilo que sabemos há muito, que guardamos dentro de nós até hoje … porque temos alguma vergonha e muito medo, medo de admitir, de como as pessoas vão reagir, medo de não sermos aceites e respeitados pelos outros, tal e qual como nós somos.
As pessoas deste mundo têm a inteira tendência para criticar e dizer mal de tudo, as pessoas não pensam nos outros, pensam apenas nelas mesmas. 
Será que é assim tão difícil para as pessoas respeitar os outros como são?”

Por ter vivido a infância e adolescência num meio pequeno como a Ilha da Madeira, escondi-me durante muito tempo, porque sabia a família que tinha e tentei evitar este assunto de ser homossexual ao máximo. Já o descobri há uns aninhos, por volta de 2008, tendo na altura 12 anos, e desde aí que comecei a explorar o meu corpo, e senti-me atraído por rapazes. Nunca falei com ninguém sobre isso, por medo, por achar que ia perder as pessoas que eram minhas amigas, que me amavam, por saber que não ia ser aceite por todos, quanto mais pela família. A minha situação de bullying iria piorar ainda mais... e não queria que isso acontecesse, fui guardando, guardando...até não poder mais!

 

S: Sofreste algum tipo de bullying na escola, ou fora dela, por seres "diferente”?

A: Imenso. Desde o 5º até ao 9º ano sofri imenso de bullying e até hoje em dia ainda há gente que me critica tanto. Nessa altura chamavam-me “gay" e gozavam imenso comigo, passei um grande mau bocado principalmente no 9º ano. Só que eu não entendia o porquê de me chamarem isso e de me tratarem como me trataram, eu sempre tentei impor à minha mente que tinha de gostar de raparigas e não podia gostar de rapazes, ou dos dois, eu na altura não percebia porque me faziam isso. As pessoas não tinham o direito de fazer o que me fizeram. Fui humilhado, maltratado, espezinhado, sei lá ... As pessoas chamavam-me de gay, mas eu nunca tinha admitido tal coisa perante ninguém, eu guardei sempre isso para mim durante uns anos. Terminei o 9º ano, mudei de escola já devido a episódios de bullying constante desde o 5º ano. Escola nova, pessoas novas, aparentemente tudo correria bem... Até que a certa altura começo a ver a minha vida a andar para trás: lá começaram outra vez os episódios de bullying também no secundário.

 

S: Queres partilhar algum episódio do qual foste vítima?

A: Cheguei a ser ameaçado na escola com uma navalha e um isqueiro, os colegas de turma colocavam pioneses nas cadeiras, vezes sem conta, chegaram até a entornar-me uma garrafa de leite para cima da roupa com o propósito de me humilhar e enxovalhar em plena sala de aula.
Numa aula de Matemática de 12º ano, estávamos todos num auditório e íamos ver um filme. Entrámos todos, sentámos-nos e, como sempre, chegaram aquelas pessoas atrasadas. Posteriormente, a professora não estava a conseguir colocar correctamente o filme porque as legendas estavam a ficar cortadas...e perguntou: “Quem é que percebe disto? Vocês são de informática certo? Alguém que me venha aqui me ajudar que eu de informática não percebo nada!”. Ninguém na sala se voluntariou… Até que ouço dizerem “Vai lá tu, Engenheiro!" (esse era o meu apelido lá na escola), eles costumam sempre “empurrar” tudo para cima de mim! E então lá fui eu... [...] Depois começamos a ver o filme, e a certa altura apareceu um rapaz sem t-shirt (e estava a mostrar o corpo do rapaz, eu até estava olhar e apreciar porque ele era lindo e tinha um bom corpo) e esse meu colega mandou uma piadinha (como sempre para pegar comigo e me criticar) achando-se o maior. Via-se o peito do rapaz depois continuou-se a ver o resto para baixo, e quando chegou perto de mostrar a cintura ele disse: “É melhor que a câmara não desça mais senão o Engenheiro fica teso! Olha tem cuidado!” e depois todos começaram a rir e a gozar de mim, eu fiquei tão passado nessa altura, só me apetecia dar-lhe uma estalada, fiquei com uma raiva e ira... apeteceu-me tanto chorar (mas tentei controlar) e fugir dali o mais rápido que conseguisse! Mas não, enchi-me de coragem e respondi-lhe (num tom grosseiro e bem direto para todos ouvirem) : “Já paravas com a piadinha antes que tenhas um processo disciplinar na secretaria da educação...” , começaram a gozar mais e a me imitar a dizer isso... fiquei tão fulo! A professora ouviu, e disse-lhe que devia respeitar toda a gente, e que pareciam autênticas crianças, que já tinham idade para saber respeitar as diferenças dos outros...” E o meu colega respondeu para toda gente ouvir: “Ah, eu odeio paneleiros! Detesto gajos que levam no rabo!” e outro colega meu ainda lhe disse: “Está calado, não armes mais confusão! E se tivesses uma amiga que fosse lésbica ias a desprezar só por isso?” E ele: “Sim! Detesto gays!"

Noutra aula de Educação Física estávamos a leccionar a modalidade de basebol e a professora mandou-me fazer de catcher (quem apanha as bolas), e certos colegas disseram para mim: “Ah, vai lá apanhar as bolas, tu só gostas é disso, seu vadio! Não fazes nada nas aulas… só gostas de estar sentado e  só gostas é de levar no rabo e de leitinho, não é, seu cabrão?”  Estavam sempre a gozar e a mandar bocas, sempre a me massacrar e estou farto, pelos cabelos! Fiquei com um trauma no desporto devido ao bullying passado desde há alguns anos, relembro-me de tudo o que eu passei em pequenino, e entro em modo depressivo. Depois as pessoas não me sabem integrar, metem-me sempre de parte, colocado a um canto. Sempre foi assim... E depois começam a gritar comigo, dizendo que eu não sei jogar e que não jogo direito, e gozam comigo, tudo aliado  ao facto de não me sentir bem nos balneários com os rapazes. No 11º e 12º tive atestado médico a Educação Física (dado os problemas de saúde que tive à nascença). Fazer aquelas aulas para mim era uma tremenda tortura psicológica! Foi horrível todo este processo…

 

S: Como te sentias ao ouvir esses insultos?

A: Sentia-me frustrado, arrasado, injustiça por as pessoas não se preocuparem minimamente com os outros que estão à sua volta, com o bem-estar dos outros, e com o que episódios constantes de bullying podem causar a um jovem já frágil. 
Acabei por abandonar a escola em Janeiro de 2014, ficando apenas com o 11º ano completo para todos os efeitos. Isto devido ao facto de a situação ter chegado ao limite do que aguentava e não suportar mais a pressão psicológica tanto em casa como na escola, ter de encarar aqueles brutamontes todos os dias... Estava na altura de pôr o meu ponto final, quanto para mais eu sabia que a escola não estava minimamente interessada em defender os meus direitos.
 
 
S: Alguma vez pensaste em desaparecer?
A: Sim algumas vezes, mas descobri que se o fizesse os problemas iriam continuar, teria de fazer algo por mim e enfrentar as adversidades como elas são.
 
 
S: Quando contaste aos teus pais, qual foi a reação deles?
A: Infelizmente não tive a hipótese de contar, e se a tivesse tido a minha intenção seria guardar o segredo mais uns anos, porque desde cedo soube que não iriam saber respeitar-me e aceitar-me. Os meus pais acabaram por descobrir porque invadiram a minha privacidade e o meu intimo acabando por descobrir o segredo da pior maneira em dezembro de 2012.
Tudo aconteceu quando eu estava na sala. Como estava sozinho, aproveitei para ver umas fotos de rapazes nus no tumblr, e a minha mãe, tendo a mania de controlar tudo aquilo que eu faço, decidiu espiar-me e apareceu por trás do sofá e viu o que eu estava a fazer. A primeira reacção dela foi ficar em choque.
 
 
S: Quais foram as palavras ditas que mais recordas nesse dia?
A: Recordo-as como se fosse hoje… as palavras proferidas pela minha mãe: “ Mas o que é isso que estas para aí a ver? Que pouca vergonha! És a vergonha da família! Não tens vergonha de ser assim? Não me faças, nem eu, nem o teu pai passar vergonhas! Pelo teu irmão não faças uma coisa dessas!" (Irmão este que não se encontra com vida, morreu a nascença e é inadmissível os meus pais usarem o meu irmão para me demover de gostar de rapazes). As coisas foram piorando: “Tu só gostas é de levar no cú! Devias é levar com a comichão das urtigas! Tu não prestas, és tonto, és uma vergonha! E quem foi que te meteu isso na cabeça?”
“Homens são homens, não são gatos!”; “Uma pessoa por ter uma tatuagem, piercing, gostar de homens ou mulheres, não é considerada sociedade nenhuma, é a coisa mais horrível que existe, é a podridão do mundo”, “Isso não são pessoas, não são nada!”
Chegando ao extremo de dizer-me: “É melhor pegares numa arma e matares os teus próprios pais, assim já ficas livre de nós, já que é isso que queres! É melhor isso do que dizeres que és paneleiro! Só por uma gaja ter-te dado com os pés, tu viras-te!”. 
Com o passar do tempo vieram  outras expressões: "Filho, eu quero que tu sejas como o pai diz!” ; "Esses filhos da puta, esses paneleiros” ; “Esses amigos com quem tu andas, tens de mudar o rumo da tua vida! Assim não vais chegar longe!” ; "Não sei o que vês num homem, uma mulher tem tanto para dar a um homem, bem como um homem tem tanto para dar a uma mulher! Experimenta e vais ver como é bom!” ; "Pensei que tu eras meu amigo e gostavas de mim, não sei que tempestade vai na tua cabeça, eu ao pé de ti até me sinto um cachorro, por tu não gostares de mulheres!” ; "Tu tens de pensar na tua vida e apenas um dia mais tarde (30 anos) quando já trabalhares e ganhares é que podes estar com quem quiseres e fazeres o que bem entenderes!” ; "Já é tempo de parares com essas coisas, não tens vergonha!? Já te disse para estudares, não é para andares a ver meninos!”.
 
 
S: Nenhum outro familiar te apoiou?
A: Alguns familiares tentaram de todo ajudar e apoiar, mas tal não foi possível dada a mentalidade dos meus pais, que culpam os outros por tudo o que acontece, e ninguém quis saber.
É triste não ter família… Ser julgado e rotulado como se fosse um produto de supermercado com um código de barras... doí imenso ver que passados vinte anos, todos aqueles que te viram crescer, que lutaram por ti, que supostamente "sempre te amaram" simplesmente desligam-se, esquecem que alguma vez exististe, fazem de conta que não te conhecem... que tu já não lhes és nada, que não perdura nenhum sentimento.
Custa que os outros finjam que se importem, isto porque não houve ninguém capaz de chegar à frente e proteger-me e gritar “BASTA!!!”. Deixaram-me sofrer no meio da selva, ninguém se preocupou com o meu estado físico e psicológico, apenas estavam preocupados com possíveis guerras se me tentassem ajudar. É triste quando estás num buraco e ninguém é capaz de enfrentar as feras e tirar-te dali, na altura nem o CPCJ quis saber do meu caso...
 
 
S: Foste viver para onde?
A: Ansiava imenso que o dia D chegasse o meu décimo oitavo aniversário. Peguei nas minhas poupanças, e durante a semana seguinte tentei planear a minha vida para Lisboa com todo o cuidado para que ninguém desse por nada, como se estivesse num filme de investigação cientifica.
O  tempo foi passando, e tentei planear as coisas ao pormenor para não ficar nada esquecido... Durante algum tempo sempre disse que um dia me viria embora, nunca referenciei quando, sabia se o fizesse provavelmente me iriam tentar impedir, e aprisionar-me num local onde já não me sentia seguro nem poderia estar de maneira alguma.
O dia da libertação chegou, levantei-me de madrugada, sem fazer muito barulho e decidi vir-me embora, pé de fininho aqui e ali sem fazer o menor barulho, fechei a porta de casa, e decidi pôr-me a caminho do aeroporto para apanhar o primeiro voo da manhã.
Estava nervoso, mas por um lado feliz e liberto, como nunca estive porque sabia que finalmente iria para um sitio onde podia ser eu sem complexos, frustrações e limites, vivendo a minha vida, não escondendo quem sou eu de verdade.
Cheguei a Lisboa às oito da manhã, e estava um dia solarengo, como se todo o sofrimento tivesse sido transformado em luz, e fosse o renascer!
 
 
Continua...

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