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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

21
Mai16

À conversa com... André Mendonça (parte 2)

Sr. Solitário

S: Amas o teu namorado incondicionalmente?

A: Estamos juntos faz 8 meses no próximo dia 6 de junho, e têm sido, de facto, os melhores tempos da minha vida. É o meu primeiro relacionamento sério, estou orgulhoso de cada passo, cada conquista, cada vitória...de ambos. Após muitos casos falhados, e lágrimas derramadas, já eu a pensar que jamais alguém poderia amar-me, e isso ser reciproco, eis que aí conheci por incrível acaso e destino, a minha metade da laranja… Tudo começou, estávamos meados de outubro de 2015 sendo mais concreto numa noite morna de outono, sentia-me sozinho e triste, estava magoado com um rapaz que supostamente teria interesse em mim, mas que desapareceu misteriosamente. Tudo o que não queria era algo sério, estava cansado de tentar, e tentar, e acabava sempre por sair magoado... mas lá está a vida às vezes trama-nos umas vezes para pior ou para melhor, que acabou por ser o caso, acabei por ganhar inesperadamente uma companhia para dormir e aliviar o stress, ... foi uma noite maravilhosa. E, a cada dia que passa cada vez tenho mais certezas de que encontrei o homem da minha vida, e que um dia quero passar a fazer ainda mais parte da dele: casar e ter filhos. Nada na vida é eterno, mas amo-o como nunca fui capaz de amar alguém antes, consigo agora entender o verdadeiro significado de “amar alguém”!

 

S: São felizes juntos?

A: Somos muito felizes um com o outro, temos os nossos momentos menos bons, as nossas turras como todos os casais, mas ao longo desta viagem estamos a aprender imenso sobre a vida juntos, partilhando as nossas aprendizagens e experiências. 
No inicio o que ambos apenas queríamos era uma amizade colorida, mas com o evoluir do tempo o cupido fez das suas. É absolutamente incrível e impensável encontrar alguém com a cabeça no lugar, num site de engate muito popular, “Manhunt”. Este é daqueles sítios onde jamais se pensa que se encontra alguém para algo sério, verdadeiro e duradouro.
É tão incrível como um "Não queres companhia para dormir?" fez o encanto daquela noite. Parece um filme… foi no momento certo, à hora certa - Destino. Desde que o vi, que senti o “clique”, algo me disse que ali à minha frente estaria uma pessoa muito especial, com muito para dar-me: amor, carinho, amizade, etc.

 

S: Há quem diga que homossexualidade é doença. O que tens a dizer a essas pessoas?

A: As pessoas que ainda pensam que homossexualidade é uma doença deveriam evoluir em pessoa e em ser. Não impor barreiras ao amor.

Para amarmos alguém não interessa o sexo, raça, religião… O que interessa mesmo é o significado do sentimento Amor para nós e para esse alguém.
A homossexualidade é um pequeno detalhe que faz parte de nós desde a nossa existência, é uma forma de amar tal como a heterossexualidade, é bonita, verdadeira, real, sincera.
Nenhum ser me venha com a história de que um homem que é homem não chora. Isso é uma completa mentira, pois todos temos sentimentos e não devemos ter vergonha de nós próprios, de sermos o que somos. Homens de verdade, também choram, amam, riem, sentem-se destroçados, destruídos por dentro, parecendo que o mundo vai acabar, ficam noites pensando no que fazer, homens gostam de atenção, carinho, conversas, (...) de se sentirem amados, de se sentirem importantes para alguém! E acima de tudo homens também sofrem, sonham e têm um projecto de vida!

 

S: Finalmente deste a cara num programa de televisão, contando abertamente a tua história. Valeu a pena?

A: Sim, valeu a pena e foi das melhores coisas que fiz. Decidi finalmente que já estava mais do que na hora de partilhar a minha história de vida, a minha vivência, por forma a inspirar outros, e a demonstrar a força a coragem e orgulho que tenho em ser quem sou. E também para poder contribuir para uma diminuição do preconceito e homofobia existentes! O feedback que tenho obtido tem sido muito positivo e tenho encontrado pessoas com bom coração, que me querem ajudar naquilo que podem. Muitos dos que viram ficaram comovidos com o meu testemunho e felicitaram a minha coragem para ser quem sou sem medos. 

Quem não viu e quer rever faça-o aqui: http://sicnoticias.sapo.pt/programas/e-se-fosse-consigo/2016-05-09-E-se-fosse-consigo--A-homofobia

 

S: Qual é o contacto que tens com os teus pais neste momento?

A: Nenhum absolutamente. Faz cinco meses, dia 25 de maio, que toda a minha família se esquece que eu alguma vez existi.
À medida que o tempo passa, a teoria de não ter sido um filho desejado faz cada vez mais sentido... Como podem gostar de mim e amar-me, tendo feito aquilo que me fizeram? Chamar-me de "aberração", "paneleiro", dizer que pessoas como eu "não são nada, nem ninguém", que "eu é que escolhi esta vida", ser chamado de "drogado", entre outras coisas piores.

Há coisas jamais mudam... a relação com eles continuou a ser a mesma com o passar do tempo desde 2012. Os meus pais continuaram os iguais de sempre: a renegar-me, maltratar-me e criticar-me por tudo e mais alguma coisa. Continuaram as chantagens e manipulações emocionais, quererem saber tudo da minha vida pessoal e íntima, sem olhar a meios... Até que chegou o ponto de rotura, sendo que foram eles próprios que decidiram abandonar-me e deixar-me sem chão, no natal de 2015. 5 meses passaram desde que eles me deixaram de apoiar financeiramente. Não me falam, nem me retribuem as chamadas que lhes fiz, Ignoram-me, não só eles, mas todos os familiares como se eu alguma vez existisse. É triste, mesmo muito, mas a vida é para a frente, se não querem saber de mim para nada, manifesto o mesmo sentimento para com eles, e faço de tudo para seguir com a minha vida em frente.  
 

 

S: Como te sentes sabendo que os teus pais te abandonaram devido à tua orientação sexual?

A: Custa não ter aquele aconchego, sentir-se posto de parte, tudo por causa de algo que faz parte de mim "ser homossexual" e isso não me define, nem faz de mim uma má pessoa! É triste ter 20 anos (e ainda muito pela frente) ninguém imagina o que é ficar sem família do dia para a noite, e ter a vida num enorme reboliço como aconteceu comigo. Os meus pais chegaram a colocar-me substancias na comida para eu andar sedado e inclusive recorrer a artes do oculto (bruxarias) para me reconverter à força, e isso está errado e não se faz.

 

S: O que gostarias de lhes dizer neste momento?

A: Família não se lembra apenas dos seus quando estes fazem anos, isso para mim não vale nada... Ainda existem pessoas que teimam que a família gosta de mim, eu tenho a certeza de que se gostassem mesmo de mim, não é só no dia em que eu nasci, que se lembram, mas sim todos os dias. Eles deixaram de se importar comigo, deixaram-me da mão e completamente desamparado, sem casa e sem dinheiro. Pobres seres que não sabem enxergar o que realmente importa: “ser feliz” e estar bem com quem se ama. Pessoas e mais pessoas neste mundo imenso…querem lá esses seres saber de mim, se importar verdadeiramente comigo, me dar o devido valor que mereço, reconhecer a grande pessoa que eu sou, e a minha parte humana, esquecer os meros detalhes da minha intimidade pessoal. 

 
Prefiro esquecer que alguma vez tive família, e seguir a minha vida em frente com quem está ao meu lado, o resto já não importa. Até porque para mim, família jamais são pessoas que fazem aquilo que me fizeram, ao ponto de me tentarem me reconverter e proferir coisas inadmissíveis, do género: "As putas vão para a rotunda, agora tu não sei para onde vais", "Paneleiros", "Filhos da puta", e outras... Inclusive cheguei a sofrer violência física da parte do meu pai também, uma vez deu-me uma estalada, outra arrastou-me pelo chão e quase partia a perna, chegou a ameaçar destruir o meu pc em mil bocados. A descoberta da minha morada, do meu telefone fixo, e ter recebido uma prenda surpresa no meu vigésimo aniversário podia bem ter sido escusada, não precisava de nada, e isso de obterem o meu paradeiro de forma ilegal e condenável. Se ninguém, ninguém se lembra de mim nunca, desde que vim para cá. Primos/as, tios/as, não vou ser eu a preocupar-me que eles existem pois só falam quando necessitam de algo. Não preciso de pessoas assim na minha vida! Isto já lá vem desde 2012 e até agora não tem sido nada fácil, tendo piorado ao longo do tempo, pelo que mais vale esquecer, nem os consigo considerar como pais, mas sim progenitores.

 

S: Sentes saudades deles? Ou revolta?

A: Uma ligeira revolta pelo facto de como pode um pai e uma mãe fazer aquilo que eles me fizeram durante este tempo todo! Mas acima disso sinto pena por estes seres serem incapazes de ver o que há de belo em mim. Não há ganhos na vida sem sofrimento, aprendemos a nos tornar-mos mais fortes, e mais maduros. Quanto à família, a única que tenho tido mais perto de mim, tem sido os meus amigos e o meu namorado, tendo este feito mais por mim do que eles a vida inteira. A família de sangue que esperava dignamente que me respeitasse, apenas me mata aos poucos e poucos, e puramente isto: Não me interessa falar com esses seres, nem ter nada a ver com esses seres. Se esses seres alguma vez me respeitassem jamais tinha pensado em sair de casa e deixar tudo para trás, para poder ser eu próprio e ser feliz. 

 
Um fenómeno estranho e horrível que aconteceu, foi quando a minha mãe se decidiu meter com um "ex" meu, para saber a minha vida toda, ele inclusive foi um mentiroso e disse que me dava dinheiro para pagar as contas e que eu recusava, quando isso foi a mais completa mentira... e lá andou ele a contar à minha mãe tudo o que eu dizia ou fazia! Quando soube de tal história a única coisa que lhe disse foi: "É triste tu desceres a um nível tão baixo, e te meteres no facebook com alguém que tem idade para ser teu filho para andares a escarafunchar a minha vida toda!”
 
Em outubro de 2015 uma situação de saúde grave com a minha mãe levou-me à terrinha. Pensei que algo assim, provavelmente iria pôr a cabeça minha mãe no seu lugar, passando a respeitar-me, estava redondamente enganado. Continuou a mesma de sempre, durante este tempo todo. Lá em casa, no fundo das gavetas da minha cómoda, descobri rituais de bruxaria, feitos contra mim na minha roupa que lá ficou, fiquei horrorizado e fiz questão de documentar tudo. Custa-me a crer que durante este tempo todo desde 2012 ela não aprendeu absolutamente nada! Continua a desrespeitar-me como sempre o fez!

Com essa ida também descobri que a família alguma vez entenderá o porque, de eu ter saído de casa e abandonado os estudos, porque a minha palavra vale zero, e o problema é ser assim como sou, homossexual, dizem que não vou casar, que não vou ser nada, que sou um brutamontes, que sou um estúpido, e nunca vou ser alguém na vida! E cheguei à conclusão que não vale a pena, custou imenso estar uma semana com aquelas pessoas retardadas e hipócritas.

 

S: Algum dia haverá espaço para o perdão?

A: Sinceramente isso irá ser muito complicado e acho que impossível, as mágoas e as marcas ficam para a vida inteira.

É uma vergonha os meus pais continuarem a culpar os outros por aquilo que acontece, dizerem mal de tudo e todos, um dia irão acordar para a realidade mas aí será bastante tarde demais…Tiveram ajuda várias vezes e recusaram, não posso obrigar as pessoas a mudar, cada um vê o que quer ver, e como quer ver. Chega a um ponto em que nos apercebemos que a causa pela qual lutamos não vale a pena, e mais vale desistir. Eu fiz aquilo que podia, mas quando as pessoas não estão dispostas a ouvir o outro, a tentar entender, quando não há meio de comunicação e vem com sete pedras na mão, não há volta a dar.
Inclusive uma das psicólogas que me seguiu, que até hoje foi a única pessoa capaz de dizer à minha mãe sem papas na língua: "Você não aceita o seu filho, se continuar assim vai acabar por perdê-lo", e teve toda a razão até hoje.  A minha mãe tendo a mentalidade que tem ficou contra e proibiu-me de ir às terapias, disse que ela não era psicóloga nenhuma, disse que tem tinha arranjado a psicóloga não era boa da cabeça (uma prima minha)...  Chegou até a insinuar que a psicóloga era lésbica e que não era profissional de saúde nenhuma e que iria apresentar queixa.

 

S: O que dirias a alguém que, neste momento, está a passar pela mesma situação?

A: É preciso determinação, ser-se muito mas muito forte, ter a coragem para enfrentar tudo e todos, lutar para poder vencer na vida.

E um dia, mostrar a todos que tornaste-te em alguém com família, filhos, trabalho e realização e conseguiste fazer o teu caminho.
Aquilo que me fizeram foi tão mau, mas tão mau, que me deixou marcas irreversíveis, mas por outro lado ajudou-me a crescer em pessoa e em ser, aprendi a ser mais sorte, a perceber que o mais importante não é ter o armário cheio de roupa cara, e bens materiais, mas sim amor, carinho, amizade, e coisas que às vezes nos parecem fúteis, aqueles pequenos detalhes mas que fazem a diferença no dia a dia de alguém.
Nunca desistam, só não há solução para a morte. Tenham uma boa rede de amigos, procurem ajuda nas associações existentes em Portugal tal como a ILGA-PORTUGAL e a AMPLOS para vos tentarem ajudar no que puderem. Eu gostava que mais ninguém passasse por aquilo que passei, e vou dar o meu contributo e o melhor de mim ao mundo para torná-lo num local melhor, mais inclusivo e agradável.
Quem quiser pode seguir-me no facebook https://www.facebook.com/blogomeumundo/ e esteja à vontade para falar comigo se precisar, não hesite.
 
 
Obrigado André. Força!

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