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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

09
Jan17

À conversa com Carlos

Sr. Solitário

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Café em Grão é o nome do seu blog, uma página com um aroma muito natural, capaz de despertar os nossos sentidos. Convidei-o para um café, mas não pensem que foi um café curto, não! É um café bem cheio de emoções, risos e sentimentos. Curiosos?

Senhoras e Senhores, hoje estou à conversa com... o Carlos.

 

Olá a todos, sou o Carlos, tenho 36 anos e confesso, já há algum tempo que aguardava o teu convite para participar nesta rubrica. De tal forma que assim que o recebi sorri e o «sim aceito» surgiu logo instantaneamente! Hoje, estou aqui, sem filtros, no à conversa com...

 

Solitário: Olá Carlos, bem-vindo. Porquê o nome Café em Grão?

Carlos: Sinceramente não sei muito bem, surgiu num momento de mudança na minha vida! Tenho este blog há cerca de 11 anos, na altura “No silêncio dos meus sentidos”, fazia todo o sentido. Silêncios e segredos oprimidos, paixões secretas e tudo o mais levaram-me a procurar refúgio na escrita.

Entretanto os anos passaram, estive por diversas vezes ausente do blog e quando decidi regressar percebi que já não fazia sentido escrever num espaço com tanta amargura passada, vai daí alterei o link e o nome “Café em Grão” surgiu do nada. Uma metáfora às palavras que tal como o café no seu estado mais puro precisa de ser moído até ser consumido! Portanto é favor consumir com moderação.

 

S: Quem é o Gaybriel?

C: Pois o Gaybriel foi a máscara que usei no início, se vivia em segredo, escondendo de tudo e todos os meus segredos, os meus desejos mais íntimos não fazia sentido assinar como Carlos, o meu verdadeiro nome.

O Gaybriel era um sonhador, louco, apaixonado, um solitário também! E sabes o nome Gaybriel vai acompanhar-me para o resto da vida, não fosse esse o nome com o qual editei o meu primeiro livro.

 

S: Encontraste na poesia a forma mais clara de mostrar os teus mais profundos sentimentos. O que te causava mais tristeza e desânimo?

C: Principalmente a paixão, o amor não correspondido. Está tudo lá trás, dez anos é muito tempo! Não sabia lidar com a rejeição. Tempos complicados em que vivi numa espiral de emoções.

 

S: A que sabe a solidão?

C: A solidão nesta fase da minha vida tem sabor a paz, porque sei que é momentânea, porque sei que tenho pessoas ao meu redor, talvez a mais importante, o meu menino! Mas tempos houve, bem longínquos em que a solidão amargava e entre as quatro paredes do meu quarto sentia-me desamparado, perdido! Felizmente já passou.

 

Gosto da chuva de Inverno, dos dias de tempestade, eu sei não sou normal! Porém detesto o frio, fico de mal com o mundo se o frio me incomodar!

 

S: Ainda existe um pouco do Gaybriel em ti?

C: Descobri bem há pouco tempo que sim e que afinal pouco ou nada aprendi com o sofrimento que ficou lá trás! Portanto o Gaybriel na verdade nunca morreu em mim... ainda tenho muito dele! No fundo era só uma máscara... desde então apenas certas lacunas acabaram preenchidas, mas a essência continua lá!

 

S: Um coração tão magoado ainda estava disponível para amar?

C: Sinceramente pensava que não! Sofri e chorei tanto. Deixei de acreditar no melhor das pessoas... E depois, sabes perfeitamente que conhecer alguém que não tivesse apenas a intenção sexual era complicado. Por isso, depois dessa fase, afastei-me temporariamente da noite e do meu núcleo de amigos gay!

 

S: O facto de seres gay assumido condicionou a tua vida amorosa?

C: Assumido para pouca gente. Não condicionou em nada. Até porque aos 27 anos quando decido sair de casa, para poder viver a minha vida, em pouco tempo encontrei o meu menino!

 

S: Quando e como é que o amor finalmente surgiu para ti?

C: Vá queres rir-te um pouco?! Pois bem, quando vim morar sozinho, decidi colocar um anúncio numa revista cor-de-rosa que ainda existe! Era simples, pretendia conhecer pessoas como eu numa altura em que já frequentava as discotecas do Porto e por Internet tudo era mais fácil. No entanto arrisquei e publiquei o anúncio. Surgiram tantas, mas tantas propostas! Indecentes como deves calcular, outras mais sérias, devo ter conhecido duas ou três pessoas, até que recebo uma mensagem dele, com foto e tudo!

Ao que parece ele comprou aquela revista porque a que gostava de ler estava esgotada! É o destino. Conhecemo-nos entretanto e pronto, o namoro aconteceu, em dois anos já vivíamos juntos! E já lá vão 9 anos!

 

Gosto de pão com manteiga e de o molhar no leite, mas que coisa estúpida de se dizer, mas a verdade é que se pudesse (e não engordasse) fazia disto o meu almoço e jantar! Não gosto de feijão vermelho e ervilhas.

 

S: Consideras-te um homem feliz?

C: A felicidade existe nos momentos de partilha, de união, no sonhar a dois, no realizar. Com isto quero dizer, que a felicidade existe sim, mas não conseguimos viver sempre num estado de felicidade. Ser feliz é sentir-se completo em todos os aspetos e como deves imaginar neste momento estar desempregado não dá para me sentir completamente feliz.

 

S: A "diferença" é difícil de suportar?

C: Sinceramente, quando aprendemos a relativizar os olhares mais reprovadores, aprendemos a lidar melhor com o facto de sermos “diferentes”! E para mim, desde que ambas as famílias aceitaram, tudo o resto deixou de ser importante.

 

S: Qual o episódio mais marcante de preconceito?

C: Não te consigo dizer um momento mais marcante! Posso sim, partilhar contigo que na escola andava sempre acompanhado por um grupo de raparigas e por isso era alvo de gozação. Mas nada de muito severo que me tenha deixado marcas. Mais recentemente magoava-me no trabalho, saberem o que eu era e mesmo assim marginalizarem clientes ou conhecidos por o serem também. Sentia-me afetado também, acreditava que nas minhas costas me fariam o mesmo!

 

S: O que gostarias de dizer a muitos jovens por este mundo fora que ainda estão escondidos "dentro do armário"?

C: Coragem é o que eu posso dizer! Coragem para contarem aos pais, aos irmãos (se bem que os meus descobriram sozinhos). Na minha opinião nada mais é importante que a aceitação dos nossos! Depois disso, encarar o mundo fica tão mais fácil!

 

Gosto de conhecer pessoas, fazer amigos! Não gosto de pessoas snobs, egocêntricas e que se acham donas da razão.

 

S: O apoio da família é importante para a aceitação? Como foi no teu caso?

C: Claro que sim. Para quem como eu vê na família um grande pilar, saber que me respeitam e aceitam é sem dúvida alguma grande parte da bagagem necessária para nos aceitarmos perante nós e os outros. No meu caso, bem, mesmo usando o Gaybriel como máscara, houve quem cuscasse literalmente o meu computador e tivesse descoberto há muitos anos que eu era gay. As intrusas foram as minhas irmãs, mas ainda bem que assim foi, pois senti um grande apoio por parte delas mesmo quando decidi sair de casa para viver sozinho. A minha mãe soube há pouco mais de um ano, eu já não escondia nada, mas mesmo assim ela teve que saber com todas as letras. Se até então eu já não tinha problemas, nesse momento fiquei liberto de todos os medos.

 

S: Quem gostarias de convidar para um café?

C: Assim neste momento apenas uma pessoa, que me deve algumas explicações, a quem devo explicações também, mas que pura e simplesmente parece não querer ouvir-me!

 

S: Algum café foi bebido depressa de mais?

C: Sem dúvida alguma que sim. No seguimento da pergunta anterior, precisávamos de um café servido em chávena grande.

 

S: Em que te inspiras para escrever textos muito bonitos e ao mesmo tempo tão emotivos?

C: No dia-a-dia! Mas sei que os textos mais emotivos e bonitos, palavras tuas, são os que exprimem algo ou alguém que mexe no momento com os meus sentimentos.

 

Gosto do meu cantinho, do meu sofá, do meu sossego! Embora não goste da solidão! Gosto de mim, sim ... só não gosto de gostar de quem não gosta de mim!

 

S: Perdoarias uma traição?

C: Sim. Tudo dependeria das circunstâncias. Nunca iria perdoar levianamente como se fosse algo normal até porque acredito que uma traição deixa marcas profundas! E claro... uma vez perdoado não significa esquecido! Uma vez perdoado, que não me fizesse uma segunda, porque aí estaria a renegar ao meu amor-próprio.

 

S: Alguém te deve um pedido de desculpas?

C: Sim... Quando me fazem acreditar num “gosto de ti” e depois não agem como tal, quando deixam que se criem laços sem intenção de atar fico dececionado, desiludido. E sim, lamentavelmente alguém neste momento deve-me um pedido de desculpas.

 

S: Dentro do estojo da tua vida há um lápis para escrever o teu futuro, uma borracha para apagar o passado, uma régua para medir as alegrias, um compasso para desenhar o teu mundo e uma caneta para escrever em ti um nome difícil de apagar. Qual destes objetos usas? Porquê?

C: Com a borracha nada do meu passado apagaria, porque devo a ele a pessoa que hoje sou. As alegrias não têm forma de serem medidas mas sim sentidas. O compasso desenharia um mundo, o que aprendemos na escola, mas o meu mundo é muito maior que esse. A caneta nunca iria escrever um nome só, pois de pessoas é feito o diário da minha vida e muitos nomes teria de escrever. Por isso amigo Solitário escolheria o lápis para escrever o meu futuro, para ter certezas que não iria falhar com ninguém e também para dobrar os momentos felizes comigo mesmo e com os meus que tanto amo.

Não escreveria os números do euro milhões, mas sim um emprego estável e bem remunerado, não para ostentar, mas sim para viver e usufruir dos prazeres da vida. Ai se pudesse escrever o meu futuro...

 

S: Obrigado Carlos, foi um gosto enorme conversar contigo.

C: Obrigado eu pela viagem que me ofereceste ao meu passado, por me permitires partilhar o meu presente e por me teres convidado para a tua excelente rubrica. Espero que de certa forma possa ajudar com a minha experiência, a minha história alguns jovens que te lêem e que passem pelo mesmo que já vivemos. E a ti Solitário, muitas felicidades.

Mas já acabou? Esta não era a parte de “O que dizem os teus olhos?”

Abraço.

 

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