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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

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02
Jun16

A professora Elsa

Sr. Solitário

Conheci a professora Elsa quando entrei para a 3ª classe. Tinha 8 anos, e na altura sonhava com os 18. Quem me dera que o tempo não corresse tão rápido!

 

Mudei de residência, fui para um concelho diferente, e também mudei de escola. Não me senti nem por um momento posto de parte, ela acolheu-me muito bem, assim como muitos dos meus colegas, alguns deles amigos até hoje.

 

Sentia-me feliz. Acordava bem cedo e preparava o meu pequeno almoço e pedia à minha mãe para me apertar os atacadores, coisa que aprendi muito mais tarde só. Adorava o recreio, onde brincávamos ao pião e onde comia a minha sandes de tulicreme junto com o leite com chocolate que, nos dias de inverno, colocávamos no meio do aquecedor para ficar quentinho.

 

Os trabalhos de casa que a professora mandava fazer era quase sempre uma cópia que fazia no meu caderno A5, com uma caneta azul, e logo depois fazia um desenho e pintava-o com os marcadores da Molin, os meus preferidos. Penso que já não existem.

 
Tudo estava bem, sentia-me feliz! Uma criança verdadeiramente feliz. Contudo, houve um dia que a professora Elsa sentiu-se mal. Tivemos que chamar uma vizinha para a vir ajudar. Nesse dia ela chorou na sala de aula, talvez com medo de alguma coisa que ela já sabia, mas nós não. Lembro-me que tive vontade de chorar também, e houve quem chorasse. Não houve trabalhos de casa nesse dia. Saímos todos mais cedo. Ninguém percebia o que se estava a passar.
 
 
A professora Elsa nunca mais voltou a dar aulas. Veio um professor substitui-la. Todos sentíamos a falta dela, não é que o professor fosse mau, mas eu sentia a falta do carinho dela, da atenção que ela me dava.
 
Um dia ela veio fazer-nos uma visita. Houve uma alegria total! Eu pensava que ela ia voltar para junto de nós, tinha muitas saudades dela. Mal me viu ela disse "olha o Hélder!", os olhos marejados de lágrimas, aquele olhar de saudade, de pena. Nesse dia à tarde, fui para um lugar sozinho e chorei muito com pena dela.
 
 
Meses depois soube que a professora Elsa faleceu.
 
Fomos todos ao funeral. Eu não a reconheci no caixão, não parecia ela, a mesma professora com aquela alegria de viver. Ela estava a sorrir, mas era um sorriso muito artificial, quase como colocado à força, de lábios cerrados. Essa imagem nunca mais me sai da memória.
 
 
As filhas dela choravam muito e eu perguntava a mim próprio como seria viver sem uma mãe. Não conseguia imaginar uma resposta.
 
Na hora do enterro, peguei numa mão-cheia de terra como me disseram para fazer, e atirei para a cova onde a professora Elsa foi sepultada e disse-lhe adeus, baixinho, na minha mente.
 
 
Hoje quero prestar-lhe esta pequena homenagem. Nunca me irei esquecer dela, nunca. Ela foi como uma mãe para mim. Tudo o que me ensinou está bem presente na minha memória, se fechar os olhos e deixar a minha mente vaguear, ainda a consigo imaginar a explicar-nos como funcionava o corpo humano, num poster pendurado no quadro de lousa e com a cana para apontar o que estava a dizer.
 
 
Até sempre professora. E obrigado, obrigado!
 

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