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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

12
Out16

Avó

Sr. Solitário

A porta estava aberta quando cheguei, como sempre esteve durante o dia, convidativa, deixando o sol entrar para iluminar o pequeno corredor que dá acesso às outras divisões de uma casa antiga, em pedra, cheia de recordações, cheia de sentimentos. Uma pequena habitação que recebeu e viu crescer filhos, netos e bisnetos, três gerações.

Entrei no vestíbulo e o chão de madeira rangeu sob os meus pés. A cozinha fica do lado esquerdo e é lá que vejo a minha avó sentada num cadeirão, de olhos semicerrados, completamente absorta da minha presença recém-chegada. A Fátima Lopes fala através da televisão, promovendo um passatempo qualquer, mas ninguém lhe presta atenção.

 

Ajoelho-me perto da minha avó para tentar ter algum contacto visual com ela. Digo-lhe "olá avó" numa voz doce e calma, acompanhado de um sorriso. Ela olha-me desconfiada e murmura uma espécie de saudação. Não me reconhece, nem eu esperava que o fizesse, já há muito tempo que a doença de Alzheimer lhe roubou as memórias, fazendo-a esquecer de tudo e de todos, até do neto que sempre cuidou e mimou.

Ofereço-lhe a minha mão e ela agarra-a com força como se aquele toque a trouxesse de novo à vida. Faz menção de se levantar e eu digo-lhe que não faça isso, ao que ela desiste e diz-me "não, eu não vou". Acaricio a sua mão que outrora me acariciou a mim, e ela acalma-se. Queixa-se de algo que não consigo perceber, ou simplesmente quer atenção. Falo-lhe como se estivesse a falar com uma criança e ela concorda com tudo aquilo que digo.

Por vezes reclama, diz impropérios, tenta bater... porém, comigo nunca o fez. Será que se esqueceu totalmente do seu neto? De vez em quando penso que não, ou quero acreditar nisso.

 

Após um longo instante, tento soltar a minha mão da dela para ir até lá fora, à carpintaria do meu falecido avô que nunca cheguei a conhecer, observar os canários do meu tio que propagam a sua melodia. Ela agarra a minha mão com mais força para me impedir de sair dali. Um a um, solto os seus dedos de forma afetuosa, para não a magoar.

Recosta-se no cadeirão e eu saio da casa continuando a minha visita não só à minha avó mas a todos os cantos daquela habitação, e em todos eles tenho uma recordação que seja.

 

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