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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

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07
Mar17

E quando acabar a Sertralina?

Sr. Solitário

É um comprimido que tomo sempre de manhã, a seguir ao pequeno-almoço; eu e outros milhões de pessoas por este mundo fora. Se, porventura, me esquecer de o tomar, o meu corpo faz questão de me lembrar da ausência desse fármaco num turbilhão de sentimentos confusos e contraditórios, como se eu já não tivesse qualquer controlo sobre mim. Quando o tomo é como água fria numa fervura, lentamente as tremuras nos dedos e o nervoso miudinho desvanecem-se, regresso ao meu estado normal - ou melhor dizendo: aquele estado que eu considero como aceitável -, o meu raciocínio volta a trabalhar, um sorriso aflora-me nos lábios e eu respiro de alívio.

 

Quando era criança sempre dizia que nunca seria dependente de qualquer tipo de "drogas" ou outros vícios. Hoje, já adulto, pelo menos é assim que me descrevem, já não penso assim. Sou dependente de uma droga, de um vício, chamada Sertralina.

É ela que me dá energia para que consiga suportar o meu dia, tornando-o mais leve, mais fácil de carregar; é ela que me dá ânimo na minha busca incansável pelo meu bem-estar; é ela que oferece um pouco de cor aos meus dias cinzentos; é ela que me faz acreditar que eu sou um ser humano racional.

 

Porém, um dia, a Sertralina vai deixar de existir na minha vida. Certamente que irá fazer parte da vida de outras pessoas que, infelizmente, padecem do mesmo. Mas eu agora quero ser um pouco egoísta e pensar só em mim. E quando acabar a Sertralina? Quem, ou o quê, me vai ajudar nesta batalha difícil que travo todos os dias contra o meu corpo? Será que existe uma espécie de cura para os dependentes da Sertralina? Não existe. Ela é como um desgosto de amor, quando deixa de fazer parte da nossa vida, temos de aprender a viver sem ela. A vida continua.

 

Penso que ainda me faltam alguns meses até esse fármaco me ser retirado, aos poucos claro está. A pergunta, da qual decidi dar como título a este texto, paira na minha cabeça como um enxame de abelhas. Tento afastá-la, escondo-a bem lá no fundo mais recôndito da minha mente, para que assim ela desapareça mas, às vezes, ela volta a atacar-me e eu não tenho resposta para lhe dar. E os dias vão passando...

 

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