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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

05
Jul16

Gentes da minha terra #02

Sr. Solitário

Conheci a Sr.ª Maria quando, ainda muito jovem, ia rezar o terço à capela da minha zona durante o mês de maio, mês de Maria. Sou católico, a religião que a minha mãe me ensinou. Atualmente considero-me um católico não praticamente, pois não confio muito na igreja, na minha opinião a igreja de hoje serve mais como um negócio do que apenas um local para a prática da nossa fé. Mas já iria entrar por outros caminhos que não quero. Foquemo-nos então na história de uma grande mulher que quero contar.

 

A Sr.ª Maria é uma senhora muito doce, adora crianças, vive rodeada delas, dando-lhes todos os seus afetos e ensina-as a rezar.

Comigo aconteceu exatamente o mesmo. Aprendi a rezar o terço com ela, assim como muitas outras orações, de uma forma doce e muito querida. Aprendi também a cantar muitas músicas religiosas tão bonitas, que ainda me recordo até hoje.

 

Então, houve um dia, durante o mês de Maria, o mês em que se rezava o terço na capela sempre a partir das 20h, em que a Sr.ª Maria me disse: "hoje és tu quem vai passar o terço e nós acompanhamos".

Fiquei impressionado e igualmente nervoso. Tive receio de não conseguir fazê-lo tão bem como ela. Uma responsabilidade muito grande.

Contudo, disse para mim mesmo que iria rezar com todo o meu coração e toda a minha alma, tal como a Sr.ª Maria me ensinava, e com certeza que tudo iria correr bem.

Elevei a minha voz e rezei, com a minha voz de menino ainda, e todos adoraram acompanhar-me.

 

No final todas as pessoas me deram os parabéns, incluindo a Sr.ª Maria. Algumas dessas pessoas diziam que deveria estudar para ser padre, pois tinha imenso jeito. Não me parece, respondia.

Escusado será dizer que, a partir desse dia, fui eu que sempre passei o terço, com o próprio terço nas minhas mãos pequeninas e trémulas, com receio de me enganar.

 

Um dia a Sr.ª Maria disse que tinha um presente para mim. Um embrulho pequeno, amachucado, trazido nas suas mãos enrugadas mas macias. Dentro desse embrulho encontrava-se um terço, trazido de Fátima, benzido, só para mim.

Guardo-o até hoje, perto da minha cama, para iluminar a minha noite, e proteger os meus sonhos.

 

Cada um tem a sua fé e eu guardo a minha só para mim. E quando tenho que rezar, rezo sozinho e faço as minhas preces. Não preciso de me dirigir à igreja para que todos me possam ver a rezar.

 

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