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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

29
Mar17

Infância marcada

Sr. Solitário

Acordo com um leve abanão e por uma voz que me chama num sussurro. Abro os olhos, a figura terna da minha mãe olha-me, certificando-se de que eu desperto, e diz-me para me vestir para irmos todos a casa da minha avó.

As minhas irmãs já estão acordadas, riem-se uma para a outra numa brincadeira que só elas sabem qual é, e eu sorrio também ao ouvir as suas gargalhadas contagiantes. A minha mãe já está a vesti-las, eu não preciso de ajuda, já consigo vestir-me sozinho, preciso apenas que ela me aperte os atacadores.

 

Visto rapidamente as minhas calças de bombazine castanhas, já coçadas, e uma camisola rota nas mangas, não tenho outra tão quentinha como aquela, terá que servir.

Estamos todos prontos e saímos para uma rua ainda deserta e fria, o vento enregela-me os ossos, mas caminho com determinação para aquecer. Mal avistámos a casa de pedra da minha avó corremos para ela com uma alegria renovada, entramos pela porta adentro e gritamos: "olá avó!".

Ela recebe-nos sempre com um sorriso e aquece leite com chocolate num tacho grande para oferecer a todos. Sabe tão bem!

 

Os meus tios ainda dormem, consigo ouvir a sua respiração pesada quando abro a porta que dá para o sótão, e permaneço calado para não os acordar. Eu também já dormi naquele sótão, numa cama pequena que mal dava para nós 4, tivemos que dormir aos pares, com dois deitados para os pés da cama.

Quando eles acordam é a alegria total. Sinto-me verdadeiramente feliz. No pátio estão três carros vermelhos, os meus tios gostam de carros daquela cor, e um deles coloca música alta a tocar no seu carro. Nessa altura eu não sabia, mas eram os Modern Talking que preenchiam aqueles dias de sábado, hoje adoro ouvir as músicas dessa banda... porque será?!

 

Mais à tardinha, quando o sol começa a pôr-se, vamos ao mercado. Está lá sempre um tio da minha mãe, muito generoso, e corremos para ele ávidos de expectativa. Ele oferece-nos sempre um litro de leite e uma saca com tostas. Nessa noite teremos jantar, um jantar dos deuses! Nunca uma tigela de leite com tostas me soube tão bem.

À noite, quando nos deitamos todos na mesma cama, a minha conta-nos uma história para adormecer, eu deixo-me embalar pela sua voz e sonho com a casa da minha avó, aquela casa sempre tão cheia de vida.

 

Tinha 6 anos e já conhecia o vazio da fome.

 

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