Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

02
Mai17

José - Capítulo 1

Sr. Solitário

Os campos de milho ainda verdes perfilavam-se diante dos meus olhos como que a convidar-me a entrar dentro do seu labirinto e descobrir todo um mundo encoberto por folhas e espigas. Aquele mar esverdeado que dançava ao sabor de uma leve brisa prolongava-se para lá de onde a minha vista alcançava, o que me levava a crer que os mesmos eram infinitos, provocando-me algum receio de me perder neles e de lá nunca mais sair.

Corria o ano de 1953, tinha oito anos e não dava ouvidos aos meus receios. Não contemplava o milheiral sozinho, ao meu lado estava a Maria, uma menina de cabelos loiros como ouro, aos cachos, olhos claros, e uma alma irrequieta como a minha. Olhamos um para o outro e trocamos um sorriso cúmplice, o dela mais engraçado que o meu porque lhe faltava um dente da frente - ela zangava-se imenso quando me ria disso -, enlaçamos os nossos dedos num aperto de mão quente e juntos embrenhamo-nos pelo meio daquele labirinto como dois jovens à descoberta de uma aventura.

Enquanto corríamos com um braço à frente dos olhos para não sermos atingidos pelas folhas, ela soltava guinchos de alegria que me divertiam ainda mais, na sua linguagem de criança eu conseguia compreender que naquele nosso mundo imaginário coberto de terra e barbas de milho, nós éramos as crianças mais felizes que habitavam aquele planeta.

— Por aqui, Maria – gritava-lhe para que ela me acompanhasse, era eu que ditava as regras, que assumia a responsabilidade de qual caminho a seguir.

A vegetação que nos cobria começou a perder a densidade e deu lugar a um campo de erva aparentemente deserto. Um pessegueiro que se encontrava do nosso lado direito chamou-nos a atenção, estava repleto de pêssegos peludos e as nossas barrigas reclamaram. Depressa o alcançamos para saciar a fome, mas logo nos desiludimos ao ver que era alto de mais. A Maria começou a saltitar com o braço esticado o mais que podia na esperança vã de apanhar algum.

— Espera, fica aqui que eu vou lá busca-los – disse-lhe.

— Cuidado! Ainda cais e magoas-te a sério.

Sorri-lhe para a tranquilizar, não seria a primeira nem a última vez que subia a uma árvore, estava mais que habituado a fazê-lo, principalmente na ameixoeira que tinha na pequena horta da minha casa.

Trepei a árvore tal como um felino sem garras, rodeando o tronco com as minhas pernas, cheguei rapidamente ao cimo e abanei os ramos para que os pêssegos maduros caíssem, para logo serem apanhados e guardados no bolso do avental branco que cobria o lindo vestido azul-turquesa de Maria. Depois de obtermos uma boa quantidade da fruta que chegasse e sobrasse para os dois, saltei da árvore e finquei os joelhos no chão para amparar a minha queda.

Regalamo-nos à sombra de um sobreiro, acompanhados pela música ambiente dos pássaros e pelo cheiro adocicado dos pêssegos acabados de apanhar. Ainda hoje, passados tantos anos, consigo sentir o sabor dos pêssegos, sentir a sua textura rija, a sua polpa adocicada. Entre olhares fugazes, reparava na delicadeza com que pegava na fruta, examinava-a com cuidado, limpava algumas partículas de sujidade com as suas mãos pequenas e delicadas, e trincava-a com os olhos fechados saboreando-a. Aos meus olhos, os olhos ainda inocentes de uma criança de 8 anos, ela era a rapariga mais bela da nossa aldeia, e, nos meus pensamentos, imaginava-me casado com ela um dia, com muitos filhos do lado.

— Está a ficar tarde, eu tenho de ir para casa – disse-me com um tom preocupado.

— Eu acompanho-te – ofereci-me não porque a tivesse de proteger de algo, mas porque queria passar mais tempo com ela.

A casa da Maria era uma mansão! Feita de pedra, composta por três assoalhadas, e ladeada por um jardim bem cuidado. As tarefas da casa eram repartidas por duas criadas e um jardineiro. O pai, Francisco de Souza, era banqueiro na cidade mais próxima, pertencia a uma classe média-alta; era um dos poucos homens na aldeia que possuía um automóvel reluzente que espantava a populaça sempre que passava pelas ruas estreitas e poeirentas da nossa aldeia. Como era possível um veículo mover-se sem a ajuda de um burro ou de um cavalo?!

— Impressionante! – diziam alguns, à porta da tasca do Sr. Constantino, maravilhados com tal magnificência.

— É o fim do mundo! – replicavam outros.

A mãe, D. Graça Henriques de Souza, uma senhora cheia de etiqueta, vestida com grandes indumentárias da alta-costura de Paris, pavoneava-se pela aldeia, de nariz arrebitado, fingindo ser uma mulher da cidade e não uma campónia qualquer que se via obrigada a permanecer numa aldeola qualquer perdida no mundo. Mulher fervorosamente católica, não perdia uma única missa na igreja local, e participava ativamente em todas as ações de solidariedade para não perder a compostura.

Quando nos abeiramos da grande mansão, o jardineiro que estava a regar as tulipas em flor levantou um pouco a aba do seu chapéu em jeito de cumprimento, e, ao chegar ao portão a Maria disse:

— Amanhã, depois das aulas, podes vir aqui a minha casa? Tens que comer umas bolachas de canela que a Ana faz, são deliciosas!

— Combinado – respondi, já com água na boca.

— Então adeus – disse ela e desapareceu numa corrida.

Fiquei a vê-la a afastar-se, e quando me preparava para correr em direção à minha casa, reparei que a D. Graça me observava de uma das janelas com um ar repugnante.

 

 

— Quero ver como vou tirar esse verdete das calças! – Repreendeu-me a minha mãe furiosa, mal cheguei a casa. — Muito gostava de saber o que andas tu a fazer para chegares sempre a casa nesse estado.

— Andei a brincar, mãe – respondi com um tom mais natural possível.

Ela abanava a cabeça, já conformada com a difícil tarefa que tinha em mãos. Raramente se zangava comigo a sério, a minha mãe sempre foi uma boa mulher, boa até demais! Já o meu pai era totalmente diferente.

— Vai lavar essas mãos e essa cara que daqui a pouco jantamos.

— O pai não vem jantar? – perguntei.

— Duvido! Deve estar metido na tasca do Sr. Constantino.

O meu pai trabalhava na pedreira da aldeia. Todos os dias, depois do trabalho, parava sempre na tasca para apagar a sua sede infinita. Chegava a casa sempre tarde, a cambalear, já embriagado e com um olhar de puro ódio. Ódio da sua própria vida.

Bebi o resto do meu caldo de espinafres enquanto a minha mãe lavava a panela enegrecida pelo fogo da lareira em que cozinhava. Enquanto esfregava trauteava uma canção na sua voz doce e melodiosa. Adorava ouvi-la cantar, ficava horas e horas sentado no banco, embevecido, a escutar todas as músicas que aprendera na sua juventude, quando fazia parte do grupo folclórico da aldeia. Sabia-as quase todas de cor e, por vezes, acompanhava-a na minha voz de criança. Quando me enganava ria de mim mesmo e a minha mãe piscava-me o olho incentivando-me a continuar.

— José, é melhor subires para o teu quarto antes que o teu pai chegue. Se te apanha acordado, vai chatear-se!

Tanto eu como a minha mãe tínhamos um medo enorme do meu pai, principalmente quando chegava bêbedo a casa. Tornava-se tão agressivo e ameaçador que a sua própria voz me fazia tremer como varas verdes. Sem protestar, obedeci à minha mãe e, depois de lhe dar um beijo de boa noite, subi para o meu quarto.

O meu pai chegou poucos minutos depois. Encolhi-me todo na minha cama quando ouvi o estrondo que provocou ao abrir a porta.

— Isaura!! – gritou – onde está o meu jantar?

A minha mãe respondeu-lhe alguma coisa que não consegui compreender. Eu sabia que não tinha sobrado nada do caldo que ela fizera e depressa me culpei por ter sido tão guloso e ter devorado avidamente duas tigelas. A verdade é que o meu pai raramente jantava em casa, mas naquele dia decidiu embirrar com isso.

— Sua puta! Anda aqui um homem a matar-se a trabalhar para pôr comida na mesa e tu nem o jantar fazes para o teu marido?! Onde é que tu andas-te? Hã?

A minha mãe desfez-se em mil desculpas num tom de voz que eu não conseguia decifrar. Depois ouvi-a gritar entre bofetadas e pontapés, implorando-lhe para parar, pedindo-lhe que soltasse o seu cabelo, a chorar um pedido de perdão que nunca lhe foi concedido.

Incapaz de ouvir mais, coloquei a minha almofada por cima da cabeça, imaginando a minha mãe a cantar a suas doces melodias e a entoa-las baixinho, sobrepondo-as a todos os impropérios que ouvia o meu pai a gritar.

Quando o barulho por fim cessou, tive vontade de chorar.

 

9 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Links

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Este blogue tem direitos de autor

Copyrighted.com Registered & Protected 
AV4F-DECN-50AT-8KBU

A ler...

Blogs Portugal

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D