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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

04
Mai17

José - Capítulo 2

Sr. Solitário

Acordei com o barulho de vozes. Pus-me à escuta para tentar perceber se se tratava do pai novamente a discutir. Não era. As vozes que ouvia eram de duas mulheres que estavam a conversar mesmo na porta de entrada. Uma era da minha mãe e a outra… ah sim! A outra era da senhora Micas, a nossa vizinha.

Desci as escadas pé ante pé e sentei-me no último degrau a ouvir a conversa que se desenrolava a escassos metros dali.

— Olha Isaura, eu nem sei o que te diga mulher! Tens que aguentar, ele é o teu marido, não podes fazer nada. Deus Nosso Senhor há de te ajudar.

— Ele não é mau homem. O que o faz ser assim é o maldito vinho! Se ao menos ele parasse de beber… Tenho a certeza de que seria um homem completamente diferente.

— Ai o meu Joaquim só bebe mesmo um copito de vinho ao almoço e outro ao jantar. O médico proibiu-o de beber mais! Ele tem o… o… ai como é que se diz? O calestrol muito alto!

O Sr. Joaquim era um homem gordo, de barriga proeminente, que estava sempre a suar. Já o tinha visto por diversas vezes na tasca do Sr. Constantino e, certo dia, quando estava a caminho de casa, ele fez-me prometer que nunca contaria à senhora Micas que o tinha visto lá. Era um bom homem, mas também ele tinha uma sede infinita. “Tenho que abastecer aqui o tanque” – dizia-me ele batendo na barriga.

— Bem, senhora Micas, eu tenho de ir para dentro para preparar o pequeno-almoço e mandar o Zé para a escola. Obrigada pelo leite.

— Ah não tens de quê mulher! Deus me dê muita fartura que ao menos leite não te vai faltar a ti e ao teu filho.

— Obrigada.

Quando a minha mãe entrou de novo em casa, viu-me e quase deu um salto de susto. Levou uma mão ao peito, respirou fundo para se recompor, e olhou-me depreciativa.

— Que estás aí a fazer? Já não te disse muitas vezes que é feio escutar a conversa dos outros?!

— Cheguei agora mesmo, mãe – menti.

Olhei-a com mais atenção e reparei na grande nódoa negra que manchava o seu rosto do lado direito. Todo o meu estômago revolveu-se, senti ganas de correr escada acima e desferir um valente murro na cara do meu pai que ainda dormia, daqueles que deixam uma grande marca vermelha na pele, depois dizia-lhe que nunca mais se atravesse a bater na minha mãe, porque eu zangar-me-ia a sério! Porém, tudo não passava de ilusões, também eu tinha medo dele.

Ela pareceu notar a tristeza que vagueou pelo meu olhar, e devolveu-me um sorriso doce, a sua forma de dizer que estava tudo bem - quando na verdade estava tudo mal -, como se fosse um código secreto que só eu entenderia.

— Despacha-te que eu não quero que chegues atrasado à escola – disse, quebrando o silêncio que se tinha estabelecido entre nós, tão pesado como grilhões.

 Bebi uma caneca de leite bem cheia, tão depressa que vários pingos me desceram para o queixo e, depois de expirar uma nuvem de vapor, limpei-os à manga da camisola.

No andar de cima, o meu pai escarrou para o chão ruidosamente, gemendo com uma possível ressaca que o obrigaria a permanecer deitado durante mais umas horas, acabando por só ir trabalhar da parte da tarde, o que sucedia quase todos os dias. Perguntava-me quanto tempo mais é que o seu patrão, um velho rezingão de meia-idade, suportaria toda esta situação. O meu pai possivelmente iria ficar sem emprego e eu nem queria pensar nas consequências que isso acarretava.

Peguei na minha sacola de serapilheira onde transportava os meus cadernos e algum material escolar, e saí para o ar fresco da manhã convidativo. A minha mãe ficou na porta a acenar-me até a perder de vista. Assim, recortada com os primeiros raios de sol, de avental axadrezado, com uma grande mancha escura a sombrear-lhe o rosto, não pude deixar de reparar que ela era a mulher mais linda e mais doce do mundo inteiro, até mais bela que a Maria, mesmo estando marcada na pele e na alma.

 

A escola primária da aldeia de Senhor da Serra estava situada perto da igreja. Era um edifício ao estilo do Estado Novo, com três grandes janelas e uma porta de madeira em arco. No recreio alguns dos meus colegas jogavam à bola, gritando passes e marcando golos numa baliza imaginária e delimitada por pedras. Quando um golo era marcado com mestria, os rapazes vangloriavam-se entre as raparigas do seu feito, e elas soltavam risinhos de satisfação.

No interior da escola, várias mesas e cadeiras, pregadas a chão, perfilavam-se diante de um quadro de lousa negro com uma fina camada de pó de giz. Ao cimo, três símbolos alinhados, bem representativos do país: uma fotografia do Dr. Oliveira Salazar, outra do Presidente General Carmona e um crucifixo mesmo ao centro, em concordância com o Estado Português e a Igreja Católica.

Quando cheguei, o meu amigo Carlos, filho da proprietária da mercearia local, abeirou-se de mim com uma mão atrás das costas.

— Adivinha o que eu trouxe hoje – disse-me com um ar divertido e a língua a espreitar-lhe do canto da boca.

— Chocolates? – perguntei.

Ele revirou os olhos agastado com a minha resposta.

— Não! Melhor do que isso.

— Hum… não sei! – respondi, desistindo daquele jogo de adivinha.

A mão que estava escondida atrás das costas revelou-se por fim, e nela continha um saco cheio de bolas transparentes e cintilantes.

— Berlindes – revelou com o rosto iluminado de alegria.

— Uau! – exclamei – depois deixas-me brincar com eles?

— Claro, é para nós jogarmos todos no intervalo.

Esfreguei as mãos de contentamento. Eu era um ás no jogo dos berlindes, houve uma altura em que tinha um saco carregado deles que conseguira ganhar aos meus colegas, depois de ter encontrado apenas um esquecido no recreio da escola.

Quando soou a sineta, informando-nos de que as aulas iriam começar, todos corremos para a entrada e, ordeiramente, entramos na sala onde o professor já nos aguardava com o seu semblante fechado.

O professor Teixeira era um homem temeroso. Vestia sempre fato e gravata, os sapatos de verniz reluziam à conta de uma grande quantidade de graxa, e uns óculos redondos conferiam-lhe um ar mais intelectual. O cabelo era sempre penteado para o lado com brilhantina e tinha um fino bigode bem aparado.

— Bom dia – grunhiu enquanto escrevinhava freneticamente num pequeno caderno de capa dura.

— Bom dia, senhor professor – respondemos em uníssono.

— Podem sentar-se.

A ordem foi dada e todos o obedecemos com o burburinho habitual do arrastar das cadeiras. O Carlos, com quem dividia a carteira, guardou cuidadosamente o saco dos berlindes na sacola para não chamar a atenção do professor e não correr o risco de ficar sem eles, numa lista interminável de objetos por ele confiscados.

O professor fechou o caderno em que estava a tomar as suas notas e, resignado com mais um dia de aulas que tinha pela frente, dirigiu-se à turma com a sua voz grossa e firme.

— Hoje a aula irá ser de Língua Portuguesa, mas primeiro quero ver e corrigir os vossos trabalhos de casa. Toda a gente fez, certo?

Todos assentiram com a cabeça e eu estaquei. Esqueci-me completamente dos trabalhos de casa por causa da brincadeira com a Maria que durou a tarde inteira, estava metido num grande sarilho!

— José? Não ouviste o que eu disse?

— Ah… eu… eu não fiz os trabalhos de casa, senhor professor – acabei por responder.

O rosto do professor endureceu ainda mais.

— Porquê?

— A minha mãe está doente e eu tive que cuidar dela – menti.

— Estás a mentir-me, José! Ontem vi a tua mãe e ela pareceu-me de perfeita saúde.

Baixei o olhar, envergonhado, e preparei-me para o pior. Haviam vários castigos para os aulos que não faziam os trabalhos de casa e até mesmo para aqueles que erravam os cálculos de matemática e apresentavam erros nos ditados. Acima de tudo, para aqueles alunos que mentiam quando eram apanhados, o castigo era ainda mais severo.

— Chega aqui à minha secretária imediatamente!

O Carlos e os meus outros colegas olharam-me penosamente enquanto me levantava e me dirigia em passos lentos até à secretária do professor para levar o castigo merecido.

— Depressa! Eu não tenho o dia todo – vociferou.

Quando cheguei perto dele, um sorriso sagaz aflorava-lhe nos lábios. Parece que o que o deixava realmente bem-disposto era castigar severamente os alunos que não cumpriam as suas ordens.

— Estende a mão – ordenou e assim fiz.

Da gaveta da secretária, o professor Teixeira retirou uma palmatória escura, com cinco buracos na sua cavidade. A menina dos cinco olhos.

Com uma mão sobre os meus dedos, esticou a minha palma até ela ficar branca e com as marcas bem visíveis, e com a outra ergueu a palmatória acima da cabeça, preparando-se para me bater. Num impulso retirei a minha mão e escondia-a atrás das costas para fugir ao golpe. O professor Teixeira puxou-me pelo braço e num gesto brusco voltou a pôr a minha mão no mesmo lugar.

— Se voltas a fazer o mesmo, levas ainda mais! – disse num tom de voz ameaçador.

 A primeira batida estalou com um ruído que percorreu toda a sala em silêncio onde os meus colegas observavam expectantes. Abafei um grito que se formou na minha garganta e obriguei-me a engoli-lo. A segunda batida foi dada ainda com mais força e a minha respiração tornou-se pesada. Na terceira, algumas lágrimas espreitaram pelos cantos dos olhos quando os fechei na tentativa de me abstrair.

Levei vinte palmadas, dez por cada castigo. No fim, quando voltei à minha carteira tinha a mão dormente, e bem no meio da palma, cinco olhos avisavam-me que da próxima vez não me podia esquecer dos trabalhos de casa.

Tal como a minha mãe, também eu estava marcado.

 

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