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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

01
Mai17

José - Prólogo

Sr. Solitário

O grande relógio de pêndulo que tenho na sala faz soar as suas badaladas cortando o ar adormecido e silencioso da minha mansão. Conto-as ao mesmo tempo que são tocadas; seis. São seis horas da manhã e eu já estou desperto. Levanto-me com alguma dificuldade, gemendo com o protesto dos meus ossos ajoelho-me e agradeço a Deus por me ter concedido a graça de viver por mais um dia, seguida da minha oração da manhã.

Desço até à cozinha onde encontro a Gertrudes afadigada na preparação do meu pequeno-almoço. Esta mulher trabalha demais, já lhe disse isso por diversas vezes, mas ela responde-me sempre com um sorriso que desde muita nova está habituada ao trabalho e que parar seria o mesmo que morrer.

Fico a contempla-la durante uns escassos minutos, absorvido pelos meus pensamentos, quase como que hipnotizado com os seus gestos, a facilidade com que manuseia as mãos na preparação dos alimentos. Quando dá pela minha presença, volta-se surpreendida, e presenteia-me com um dos seus sorrisos enquanto limpa as mãos ao seu avental.

 — Já se levantou, senhor…

 Levanto a mão para a interromper, não gosto quando a minha empregada me trata por senhor. Senhor só existe Um.

— Não me trate por senhor, Gertrudes. Apenas José.

Ela volta a sorrir, envergonhada.

— Não consigo! – E abana a cabeça quando o afirma para enfatizar a sua incapacidade de me tratar pelo meu nome próprio.

Já conheço a Gertrudes há muitos anos tal como ela me conhece a mim, diria mesmo que a conheço melhor do que a sua própria família, consigo decifrar cada emoção que transparece no seu rosto, mas mesmo assim ela recusa a olhar-me como um amigo.

Bebo um copo de água fresca e mastigo uma carcaça de pão seco. Estamos no tempo da Quaresma e eu, como bom católico que sou, faço o meu jejum. Encavalito os meus óculos no nariz e olho de relance para os matutinos que estão dispersos sobre a mesa enquanto a Gertrudes me estende os comprimidos para eu os tomar. São três, de diversas formas e cores, tomo-os todos de uma vez. Sou um homem que já conta com 72 primaveras, não tenho mais a força e a energia de outrora, os meus ossos tornaram-se tão fracos que podem partir com a mesma facilidade de um cristal. A medicação ajuda-os a tornarem-se mais fortes mas também me rouba a independência.

Vou para o escritório e sento-me defronte da minha secretária. Nela encontra-se uma remessa de folhas em branco que mandei providenciar à Gertrudes. Tenho uma ideia na cabeça que me surgiu enquanto lia um livro e, a partir desse dia, ela passeia na minha mente e teimosamente insiste em ficar.

Quero escrever a história da minha vida.

Devo estar louco, não sei, talvez seja melhor abordar este assunto com o médico numa próxima consulta. Que interesse teria a minha vida para os outros? Ninguém iria perder tempo a ler umas folhas soltas escritas por um velho raquítico. É o que penso, posso estar redondamente enganado, afinal a minha história dava um filme como muitos outros me dizem, por vezes em confissão.

Contudo, eu sinto a necessidade de a escrever, de passar todas as minhas emoções para estas folhas de papel, enchendo-as de tinta que só o tempo as poderá apagar. E se, amigo leitor, não se interessar no que nelas escrevo, resta-me apenas dar-lhe razão e pedir-lhe que as esqueça. São apenas memórias, nada mais. Memórias pesadas de um velho cansado de as carregar.

Uma leve batida na porta interrompe os meus pensamentos. Atiro um “entre” e a figura atarracada da Gertrudes espreita pela porta. Traz consigo uma chávena fumegante numa bandeja.

— Trouxe-lhe um chá de erva-cidreira, senhor Padre.

Agradeço-lhe e dispenso-a num gesto brusco. Quero ficar sozinho a escrever as minhas memórias.

— Está um dia lindo lá fora. O sol brilha e os pássaros cantam, dão as boas-vindas à primavera. Os amores-perfeitos que plantamos já começam a rebentar. Devia ir vê-los, senhor Padre, apanhar um pouco de ar, ia fazer-lhe bem.

— Hoje não quero. Perdoe-me Gertrudes, mas hoje quero ficar sozinho.

— Com certeza – e sai sem mais uma palavra.

Pego na minha esferográfica, nem sei por onde começar… Sim! Como uma boa história, tenho de começar pelo início, pela minha primeira memória.

 

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