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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

22
Abr16

Memórias

Sr. Solitário

Numa aldeia rural, situada quase no fundo de um concelho, ladeada por campos até perder de vista, onde os pássaros chilreiam logo pela manhã mal nasce o sol, vive um casal de meia idade, numa casa oitocentista, divida em partes iguais por uma parede de pouca espessura, formando assim uma espécie de duas casas geminadas.

 

A Sr.ª Emília e o Sr.º Francisco, casados há mais de 30 anos, residem nessa mesma habitação já há muitos anos, desde que me lembro, ainda era eu uma criança que corria por esses campos fora, cheio de vida, dando largas à minha imaginação tão fértil.

Éramos vizinhos, vivia junto com a minha família na casa ao lado, aquela mesmo colada, parede com parede.

 

A Sr.ª Emília era a vizinha que todos gostariam de ter. Uma mulher simples e humilde, sempre preocupada com o bem-estar de todos. Deixávamos a roupa a secar lá fora, estendida numa corda de nylon, ao sol ou ao vento a roupa secava num instante mas, mal o céu escurece-se e ameaça-se chover, ela alertávamo-nos para a apanhar. Podíamos sair despreocupadamente de casa, com a roupa cá fora, pois sabíamos que se chovesse, ao chegar a casa, tínhamos a roupa toda apanhada, bem dobrada na bacia, seca, junto da nossa porta.

 

Levantava-se sempre muito cedo para tratar de todos os seus afazeres. Vestida com o seu avental, enchia o depósito da água logo pela manhã, água fresca do poço, um poço que era partilhado por três casas, que na altura do verão secava e nos obrigava a passar dias em que a água escasseava. Logo depois regava a sua horta cheia de legumes, ervas aromáticas e flores, muitas flores. A Sr.ª Emília gosta muito de flores e, muito honestamente, ela tinha imenso jeito para fazer grandes arranjos. Tantas vezes nos trouxe flores para as colocarmos numa jarra, na mesa da sala.
Ainda me lembro da horta dela, sempre bem arranjadinha, organizada, aos quadradinhos ladeados por terra batida para poder passar no meio deles.

 

O Sr.º Chico (é assim que é tratado por aqueles que o conhecem), homem de grande porte, bigode farto, com um sentido de humor sempre presente, um sorriso meigo, um homem pacato e de grande coração, levantava-se igualmente cedo, tomava o seu pequeno-almoço e lá ia ele no seu twingo a caminho do hospital onde desempenhava funções. Uma vida dedicada a ajudar os outros. Hoje é ele quem precisa de ajuda, ironia do destino!

 

Prezavam muito o seu sossego. A Sr.ª Emília reclamava muitas vezes quando eu ouvia música muito alto. Dizia que fazia mal à nossa audição, e tinha razão, mas quando se é jovem não ligamos aos conselhos dos mais velhos. Quando fazíamos barulho a mais, ouvíamos algumas batidas na parede, o seu jeito de pedir silêncio. Quem me dera voltar a ter o sossego que tinha na altura!

 

Ouvi tantas vezes:
"Tens que ouvir a música mais baixinho que isso gasta muita luz!"
"Fazei menos barulho que o Chico já está a dormir!"
"Se quiseres ser professor não podes berrar assim tão alto quando estás a ensinar as tuas irmãs".
Sempre atenta a tudo, não o dizia de uma forma irritada nem chateada, dizia-o com um sorriso, olhar meigo, palavras doces.

 

Contudo, o tempo foi passando. Muito mais havia a contar. As circunstâncias da vida fizeram com que nos mudássemos. O contacto próximo que tínhamos entre nós, foi desvanecendo, como um nevoeiro matinal que desaparece quando não consegue lutar mais contra o sol que nasce.

 

Recentemente vi-os, aos dois, no largo da capela.
O Sr.º Chico já não trabalha no hospital. A sua companhia recentemente adquirida é uma canadiana. O grande porte já não é sinónimo de força e a cada passo que dá é uma luta. O sentido de humor continua presente, mas de uma forma mais branda, bem presente o sofrimento no olhar. Aquele olhar amargurado, triste com a vida. Mesmo assim ainda trata da sua mulher, atenciosamente, com tanto carinho que até emociona! Um amor verdadeiro, daqueles que já não se vê de hoje em dia. Um é o amparo do outro.

 

A Sr.ª Emília ainda usa o avental. Cabelo grisalho, rugas bem marcadas no rosto e nas mãos, indicando uma vida dura de trabalho árduo de sol a sol.
A minha mãe ficou junto dela durante toda a tarde, perguntou-lhe se ela me conhecia. A Sr.ª Emília olhou-me, um olhar igualmente triste, cansado, e disse o meu nome. E o meu coração fiou tão pequenino ao ver uma senhora, tão frágil, tão vulnerável que em tempos vendia saúde, e irradiava vida.

 

Sorveu uma tijela de caldo verde, a fumegar, com broa. Logo depois disse que estava cansada, queria ir para casa. Foram os dois juntos, o Chico ajudou-a a entrar no carro, o mesmo twingo de outrora, e lá partiram para a mesma casa que os dois partilham há tantos anos, desta vez vazia de alegria, sem vizinhos a quem apanhar a roupa, a quem oferecer flores, um silencio pesado, a solidão.

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