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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

06
Abr16

O encontro

Sr. Solitário

Estava a chover. As gotas da chuva que caía, batiam no vidro do carro intensamente, e logo eram limpas pelo para-brisas que, incansavelmente, andava de um lado para o outro, num gesto frenético e pouco eficaz.

Os meus olhos acompanhavam esse movimento, aquele olhar sem ver, absorto nos meus pensamentos, enquanto tentava me lembrar do caminho mais curto para a terra para onde me dirigia. Eu ia ver o meu pai, após tantos anos de afastamento. Que irónica é a vida, estive tantos anos a evitar lembrar-me desse lugar, e naquele dia procurava-o nos confins da minha memória.

 

Tudo estava tão diferente do que da última vez que lá tinha passado, há 10 anos atrás. Casas restauradas, ruas que nem sabia que existiam, estabelecimentos que fecharam, outros que abriram, certezas que se transformaram em dúvidas.

A persistência foi mais forte que tudo e, por fim, lá encontrei a casa onde o meu pai sempre viveu. Diferente também, paredes pintadas de outra cor, uma cor mais viva, embelezando mais o bairro.

As minha memórias assaltaram de novo a minha mente. Vi-me a mim próprio, uma criança de cabelos louros, muito sorridente, cheia de energia, correndo por essa rua fora ao encontro dos braços do meu pai. Ele abraçava-me, dava-me um beijo e chamava-me de "meu homem".

Queria que ele estivesse ali, onde outrora esteve, de braços abertos. Mas não estava. Liguei-lhe e disse onde estava. Ele disse-me que estava no café, que não o avisei quando vinha. Pois não pai, quis fazer-te uma surpresa, mas não faz mal, eu vou ter contigo onde estiveres, nem que seja no fim do mundo!

Ele explicou-me direitinho todo o caminho e lá fui. Ligou-me pouco tempo depois perguntando-me se demorava, também ele ansioso de me ver. "Não pai, já estou mesmo aqui, já vou!".

A palavra pai saiu-me da boca tantas vezes nesse dia!! Todas aquelas vezes em que eu a reprimi na garganta no passado.

 

Então vi-o. Ele acenou-me para eu o ver, mas não era preciso, eu reconheceria-o na mesma. Um filho conhece sempre um pai, e vice-versa, pelo menos é assim que tem que ser.

Estava diferente, mais velho claro está, a idade não perdoa. Mas era o meu pai que estava ali, a sorrir-me. Deu-me um aperto de mão. Eu também sorri e abracei-o fortemente.

Queria que o tempo parasse ali, queria que aquele abraço durasse eternidades! Queria carinho, protecção, colo, tudo aquilo que me faltou ao longo destes anos de ausência de um pai. Senti-me uma criança indefesa que finalmente encontrou o seu anjo protector.

 

Falamos durante horas entre o burburinho do café, nem demos pelo tempo passar. Entre explicações e desculpas, entendemos-nos perfeitamente! Tomei uma cevada quentinha, pois não tomo café. O meu pai pagou-a, 55 cêntimos, com umas parcas moedas da sua carteira. A vida também não tem sido fácil para ele.

Falou na vontade que tem em conhecer as netas. Mostrei-lhe fotografias, contei imensos episódios. Inteirei-o de tudo o que se passava connosco.

 

Despedimos-nos com a promessa de nos vermos muito em breve. Fui para casa com a alma tão mais leve que seria capaz de levitar. Já não haviam mais pensamentos do negro passado que me pudessem assaltar. Agora sim, a missão está cumprida.

 

Quando fui para casa, já não chovia.

 

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