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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

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11
Abr16

Preconceito

Sr. Solitário

Já assumi aqui no blog a minha homossexualidade. Fui bem aceite por esta sociedade  da blogosfera, o que me deixa bastante animado.

Por ser diferente, ou seja, por ter uma orientação sexual diferente, algo que ainda não é tão bem aceite assim nesta sociedade, já fui alvo de muitas situações de preconceito. Desde a humilhações em público, piadas e olhares desagradáveis, ao longo destes quase 30 anos, já passei por um pouco de tudo.

 

Contudo, a situação que hoje vos vou relatar, por mais inacreditável que possa parecer, aconteceu! Uma situação de puro preconceito, uma atitude por parte de um ser humano que não aceita tal facto e o mostrou da pior forma possível.

 

Era domingo à tarde. Estava entediado em casa por não ter o que fazer. Decidi ir caminhar um pouco pela rua para desanuviar a cabeça, aliviar a tal irritação que se instalou em mim.

Na minha caminhada, passei por um café onde estavam alguns jovens cá fora, não sei precisar quantos nem quem eram, e isso foi um dos maiores erros da minha vida.

 

Ao passar pelo estabelecimento oiço piadas do género:

"Olha o paneleiro!";

"Vai levar no cú o filho da p***";

"Mata-te seu porco!";

"És um nojo, és um lixo".

 

Ignorei tais comentários e continuei a minha caminhada. Nestas situações é melhor desprezar, é o que esse tipo de pessoas merece. Mesmo que reagisse, iria ser pior, pois eles eram muitos e eu estava sozinho.

Talvez eles quisessem mesmo que eu reagisse para terem uma oportunidade de mostrarem o seu desagrado para comigo de uma forma mais violenta. Eu nunca lhes dei esse gosto.

 

Ao regressar, algo no meu instinto me dizia para não passar pelo mesmo sítio onde fui humilhado, mas como eu não fiz mal a ninguém e nem me apetecia ir por outro sítio mais longo, arrisquei. Maldita a hora em que o fiz.

 

Eles continuavam lá, estavam a ouvir música. Uma música dos Da Weasel, nunca mais me esqueço! Atravessei a rua na passadeira sem olhar uma única vez para o café e para o que se passava ali.

Porém, de repente, senti uma dor lancinante na cabeça. Instintivamente levei a mão à parte de trás da cabeça, senti um golpe, voltei a mão e vi que estava suja de sangue. Cambaleei até ao passeio. Na passadeira jazia uma grande pedra no chão. Aquela que me atingiu, atirada por alguém que se escondeu de seguida pois, ao olhar para o café, este encontrava-se deserto.

Um deles veio espreitar para ver se eu estava vivo ou coisa do género e voltou-se para dentro logo depois. Ninguém me perguntou se estava bem, ninguém me ajudou. Foi o preço que paguei pelo desprezo.

 

Fiz o caminho de regresso a casa cambaleante, a dor na cabeça era insuportável, deixava-me zonzo. A ferida não parava de sangrar. Cheguei a casa e não consegui dizer mais nada. A minha mãe olhou-me e perguntou o que tinha acontecido, alarmada. Contei-lhe tudo, as lágrimas corriam pelo meu rosto sem eu conseguir impedi-las.

Imediatamente ela ligou para a GNR. Perguntaram-me se eu tinha visto quem me atirou a pedra, eu respondi que não. Ouvi do outro lado da linha "Então não podemos fazer nada".

 

A minha mãe, completamente fora de si, foi ao café disposta a resolver o assunto pelas próprias mãos, como um animal feroz defende a sua cria.

"Eu quero saber quem atirou uma pedra ao meu filho?! Acusa-te seu covarde!" - gritou ela. Ninguém se acusou. A senhora do café disse não saber de nada, estava claramente a mentir, pois foi ela quem o escondeu, vim a saber mais tarde.

 

O caso foi encerrado ali. Nada mais havia a fazer, ou se havia, nós não sabíamos como agir.

Um paneleiro apedrejado na rua. Ninguém foi culpado, eu é que sofri todas as consequências físicas e psicológicas que advieram daí. Talvez a culpa foi minha, quem me manda ser como sou? É... a culpa deve ter sido minha...

 

Ouve alguém que lá estava nesse dia e me disse quem me atirou a pedra, mais tarde, talvez por descargo de consciência. Pelo menos, eu sei quem foi.

 

Cruzo-me com ele por diversas vezes. Ele nunca me olha nos olhos, não me encara. É o maior covarde que eu conheço neste mundo.

Um dia, quando tiver oportunidade, dir-lhe-ei que nunca, mas nunca, o perdoarei! Tudo se paga neste mundo, eu acredito muito nisso, e um dia ele me pedirá ajuda e eu irei recusar... não sei! Eu sou muito diferente dele.

 

Nunca lhe vou perdoar. Se o fizer, não só estou a perder o respeito por mim próprio, como também daqueles que, como eu, todos os dias luta contra este maldito preconceito.

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