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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Sr. Solitário

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27
Out16

Quando for grande...

Sr. Solitário

A minha mãe estava a trabalhar na sua pequena horta ao lado da nossa casa. Eu estava sentado à mesa da cozinha branca e vincada com pequenas rugas que denunciavam a sua velhice, a fazer os trabalhos de casa. Tinha que fazer uma cópia do livro de português para o meu caderno de tamanho A5, a cópia da fábula "A raposa e as uvas", aquela fábula que fala de uma raposa esfomeada que esperou e esperou que as uvas caíssem da ramada para as poder comer, mas as uvas não caíram e ela acabou por desistir sem lutar para as obter. Penso que era assim, se a memória não me falha, pois com 30 anos ela já mostra alguns sinais de esquecimento.

 

Fiz a cópia com a letra mais bonita que consegui, desenhando as letras ao longo das linhas pautadas que enchiam o caderno que comprei na loja da Tia Lurdes, com uma caneta de tinta azul, soprando à medida que escrevia para que não borratasse. Transcrevi todo o texto, palavra por palavra, ponto por ponto, e no final até senti pena da raposa. A seguir fiz uns exercícios de matemática e os trabalhos de casa acabaram por ali.

Folheei o livro de português à procura de mais histórias para ler e tive vontade de escrever mais uma cópia, mas desisti da ideia, pois no dia seguinte certamente que teria mais uma para fazer.

 

À medida que guardava os livros cuidadosamente na mochila, pensei no quanto eu gostava da escola e o quanto adorava aprender. Desejei que a escola durasse eternamente e, então, fui acometido por um desejo. Se eu estudasse para ser professor, podia passar mais tempo na escola e ensinar aos outros aquilo que sabia e aquilo que ainda iria aprender.

A minha mãe chegou do campo e eu disse-lhe: "Mãe, quando for grande quero ser professor!"

Tinha 8 anos e um sonho formou-se na minha cabeça tão vincado como as rugas daquela mesa onde me sentava todas as tarde a fazer uma cópia e a estudar a tabuada.

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