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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

04
Mai17

José - Capítulo 2

Sr. Solitário

Acordei com o barulho de vozes. Pus-me à escuta para tentar perceber se se tratava do pai novamente a discutir. Não era. As vozes que ouvia eram de duas mulheres que estavam a conversar mesmo na porta de entrada. Uma era da minha mãe e a outra… ah sim! A outra era da senhora Micas, a nossa vizinha.

Desci as escadas pé ante pé e sentei-me no último degrau a ouvir a conversa que se desenrolava a escassos metros dali.

— Olha Isaura, eu nem sei o que te diga mulher! Tens que aguentar, ele é o teu marido, não podes fazer nada. Deus Nosso Senhor há de te ajudar.

— Ele não é mau homem. O que o faz ser assim é o maldito vinho! Se ao menos ele parasse de beber… Tenho a certeza de que seria um homem completamente diferente.

— Ai o meu Joaquim só bebe mesmo um copito de vinho ao almoço e outro ao jantar. O médico proibiu-o de beber mais! Ele tem o… o… ai como é que se diz? O calestrol muito alto!

O Sr. Joaquim era um homem gordo, de barriga proeminente, que estava sempre a suar. Já o tinha visto por diversas vezes na tasca do Sr. Constantino e, certo dia, quando estava a caminho de casa, ele fez-me prometer que nunca contaria à senhora Micas que o tinha visto lá. Era um bom homem, mas também ele tinha uma sede infinita. “Tenho que abastecer aqui o tanque” – dizia-me ele batendo na barriga.

— Bem, senhora Micas, eu tenho de ir para dentro para preparar o pequeno-almoço e mandar o Zé para a escola. Obrigada pelo leite.

— Ah não tens de quê mulher! Deus me dê muita fartura que ao menos leite não te vai faltar a ti e ao teu filho.

— Obrigada.

Quando a minha mãe entrou de novo em casa, viu-me e quase deu um salto de susto. Levou uma mão ao peito, respirou fundo para se recompor, e olhou-me depreciativa.

— Que estás aí a fazer? Já não te disse muitas vezes que é feio escutar a conversa dos outros?!

— Cheguei agora mesmo, mãe – menti.

Olhei-a com mais atenção e reparei na grande nódoa negra que manchava o seu rosto do lado direito. Todo o meu estômago revolveu-se, senti ganas de correr escada acima e desferir um valente murro na cara do meu pai que ainda dormia, daqueles que deixam uma grande marca vermelha na pele, depois dizia-lhe que nunca mais se atravesse a bater na minha mãe, porque eu zangar-me-ia a sério! Porém, tudo não passava de ilusões, também eu tinha medo dele.

Ela pareceu notar a tristeza que vagueou pelo meu olhar, e devolveu-me um sorriso doce, a sua forma de dizer que estava tudo bem - quando na verdade estava tudo mal -, como se fosse um código secreto que só eu entenderia.

— Despacha-te que eu não quero que chegues atrasado à escola – disse, quebrando o silêncio que se tinha estabelecido entre nós, tão pesado como grilhões.

 Bebi uma caneca de leite bem cheia, tão depressa que vários pingos me desceram para o queixo e, depois de expirar uma nuvem de vapor, limpei-os à manga da camisola.

No andar de cima, o meu pai escarrou para o chão ruidosamente, gemendo com uma possível ressaca que o obrigaria a permanecer deitado durante mais umas horas, acabando por só ir trabalhar da parte da tarde, o que sucedia quase todos os dias. Perguntava-me quanto tempo mais é que o seu patrão, um velho rezingão de meia-idade, suportaria toda esta situação. O meu pai possivelmente iria ficar sem emprego e eu nem queria pensar nas consequências que isso acarretava.

Peguei na minha sacola de serapilheira onde transportava os meus cadernos e algum material escolar, e saí para o ar fresco da manhã convidativo. A minha mãe ficou na porta a acenar-me até a perder de vista. Assim, recortada com os primeiros raios de sol, de avental axadrezado, com uma grande mancha escura a sombrear-lhe o rosto, não pude deixar de reparar que ela era a mulher mais linda e mais doce do mundo inteiro, até mais bela que a Maria, mesmo estando marcada na pele e na alma.

 

A escola primária da aldeia de Senhor da Serra estava situada perto da igreja. Era um edifício ao estilo do Estado Novo, com três grandes janelas e uma porta de madeira em arco. No recreio alguns dos meus colegas jogavam à bola, gritando passes e marcando golos numa baliza imaginária e delimitada por pedras. Quando um golo era marcado com mestria, os rapazes vangloriavam-se entre as raparigas do seu feito, e elas soltavam risinhos de satisfação.

No interior da escola, várias mesas e cadeiras, pregadas a chão, perfilavam-se diante de um quadro de lousa negro com uma fina camada de pó de giz. Ao cimo, três símbolos alinhados, bem representativos do país: uma fotografia do Dr. Oliveira Salazar, outra do Presidente General Carmona e um crucifixo mesmo ao centro, em concordância com o Estado Português e a Igreja Católica.

Quando cheguei, o meu amigo Carlos, filho da proprietária da mercearia local, abeirou-se de mim com uma mão atrás das costas.

— Adivinha o que eu trouxe hoje – disse-me com um ar divertido e a língua a espreitar-lhe do canto da boca.

— Chocolates? – perguntei.

Ele revirou os olhos agastado com a minha resposta.

— Não! Melhor do que isso.

— Hum… não sei! – respondi, desistindo daquele jogo de adivinha.

A mão que estava escondida atrás das costas revelou-se por fim, e nela continha um saco cheio de bolas transparentes e cintilantes.

— Berlindes – revelou com o rosto iluminado de alegria.

— Uau! – exclamei – depois deixas-me brincar com eles?

— Claro, é para nós jogarmos todos no intervalo.

Esfreguei as mãos de contentamento. Eu era um ás no jogo dos berlindes, houve uma altura em que tinha um saco carregado deles que conseguira ganhar aos meus colegas, depois de ter encontrado apenas um esquecido no recreio da escola.

Quando soou a sineta, informando-nos de que as aulas iriam começar, todos corremos para a entrada e, ordeiramente, entramos na sala onde o professor já nos aguardava com o seu semblante fechado.

O professor Teixeira era um homem temeroso. Vestia sempre fato e gravata, os sapatos de verniz reluziam à conta de uma grande quantidade de graxa, e uns óculos redondos conferiam-lhe um ar mais intelectual. O cabelo era sempre penteado para o lado com brilhantina e tinha um fino bigode bem aparado.

— Bom dia – grunhiu enquanto escrevinhava freneticamente num pequeno caderno de capa dura.

— Bom dia, senhor professor – respondemos em uníssono.

— Podem sentar-se.

A ordem foi dada e todos o obedecemos com o burburinho habitual do arrastar das cadeiras. O Carlos, com quem dividia a carteira, guardou cuidadosamente o saco dos berlindes na sacola para não chamar a atenção do professor e não correr o risco de ficar sem eles, numa lista interminável de objetos por ele confiscados.

O professor fechou o caderno em que estava a tomar as suas notas e, resignado com mais um dia de aulas que tinha pela frente, dirigiu-se à turma com a sua voz grossa e firme.

— Hoje a aula irá ser de Língua Portuguesa, mas primeiro quero ver e corrigir os vossos trabalhos de casa. Toda a gente fez, certo?

Todos assentiram com a cabeça e eu estaquei. Esqueci-me completamente dos trabalhos de casa por causa da brincadeira com a Maria que durou a tarde inteira, estava metido num grande sarilho!

— José? Não ouviste o que eu disse?

— Ah… eu… eu não fiz os trabalhos de casa, senhor professor – acabei por responder.

O rosto do professor endureceu ainda mais.

— Porquê?

— A minha mãe está doente e eu tive que cuidar dela – menti.

— Estás a mentir-me, José! Ontem vi a tua mãe e ela pareceu-me de perfeita saúde.

Baixei o olhar, envergonhado, e preparei-me para o pior. Haviam vários castigos para os aulos que não faziam os trabalhos de casa e até mesmo para aqueles que erravam os cálculos de matemática e apresentavam erros nos ditados. Acima de tudo, para aqueles alunos que mentiam quando eram apanhados, o castigo era ainda mais severo.

— Chega aqui à minha secretária imediatamente!

O Carlos e os meus outros colegas olharam-me penosamente enquanto me levantava e me dirigia em passos lentos até à secretária do professor para levar o castigo merecido.

— Depressa! Eu não tenho o dia todo – vociferou.

Quando cheguei perto dele, um sorriso sagaz aflorava-lhe nos lábios. Parece que o que o deixava realmente bem-disposto era castigar severamente os alunos que não cumpriam as suas ordens.

— Estende a mão – ordenou e assim fiz.

Da gaveta da secretária, o professor Teixeira retirou uma palmatória escura, com cinco buracos na sua cavidade. A menina dos cinco olhos.

Com uma mão sobre os meus dedos, esticou a minha palma até ela ficar branca e com as marcas bem visíveis, e com a outra ergueu a palmatória acima da cabeça, preparando-se para me bater. Num impulso retirei a minha mão e escondia-a atrás das costas para fugir ao golpe. O professor Teixeira puxou-me pelo braço e num gesto brusco voltou a pôr a minha mão no mesmo lugar.

— Se voltas a fazer o mesmo, levas ainda mais! – disse num tom de voz ameaçador.

 A primeira batida estalou com um ruído que percorreu toda a sala em silêncio onde os meus colegas observavam expectantes. Abafei um grito que se formou na minha garganta e obriguei-me a engoli-lo. A segunda batida foi dada ainda com mais força e a minha respiração tornou-se pesada. Na terceira, algumas lágrimas espreitaram pelos cantos dos olhos quando os fechei na tentativa de me abstrair.

Levei vinte palmadas, dez por cada castigo. No fim, quando voltei à minha carteira tinha a mão dormente, e bem no meio da palma, cinco olhos avisavam-me que da próxima vez não me podia esquecer dos trabalhos de casa.

Tal como a minha mãe, também eu estava marcado.

 

02
Mai17

José - Capítulo 1

Sr. Solitário

Os campos de milho ainda verdes perfilavam-se diante dos meus olhos como que a convidar-me a entrar dentro do seu labirinto e descobrir todo um mundo encoberto por folhas e espigas. Aquele mar esverdeado que dançava ao sabor de uma leve brisa prolongava-se para lá de onde a minha vista alcançava, o que me levava a crer que os mesmos eram infinitos, provocando-me algum receio de me perder neles e de lá nunca mais sair.

Corria o ano de 1953, tinha oito anos e não dava ouvidos aos meus receios. Não contemplava o milheiral sozinho, ao meu lado estava a Maria, uma menina de cabelos loiros como ouro, aos cachos, olhos claros, e uma alma irrequieta como a minha. Olhamos um para o outro e trocamos um sorriso cúmplice, o dela mais engraçado que o meu porque lhe faltava um dente da frente - ela zangava-se imenso quando me ria disso -, enlaçamos os nossos dedos num aperto de mão quente e juntos embrenhamo-nos pelo meio daquele labirinto como dois jovens à descoberta de uma aventura.

Enquanto corríamos com um braço à frente dos olhos para não sermos atingidos pelas folhas, ela soltava guinchos de alegria que me divertiam ainda mais, na sua linguagem de criança eu conseguia compreender que naquele nosso mundo imaginário coberto de terra e barbas de milho, nós éramos as crianças mais felizes que habitavam aquele planeta.

— Por aqui, Maria – gritava-lhe para que ela me acompanhasse, era eu que ditava as regras, que assumia a responsabilidade de qual caminho a seguir.

A vegetação que nos cobria começou a perder a densidade e deu lugar a um campo de erva aparentemente deserto. Um pessegueiro que se encontrava do nosso lado direito chamou-nos a atenção, estava repleto de pêssegos peludos e as nossas barrigas reclamaram. Depressa o alcançamos para saciar a fome, mas logo nos desiludimos ao ver que era alto de mais. A Maria começou a saltitar com o braço esticado o mais que podia na esperança vã de apanhar algum.

— Espera, fica aqui que eu vou lá busca-los – disse-lhe.

— Cuidado! Ainda cais e magoas-te a sério.

Sorri-lhe para a tranquilizar, não seria a primeira nem a última vez que subia a uma árvore, estava mais que habituado a fazê-lo, principalmente na ameixoeira que tinha na pequena horta da minha casa.

Trepei a árvore tal como um felino sem garras, rodeando o tronco com as minhas pernas, cheguei rapidamente ao cimo e abanei os ramos para que os pêssegos maduros caíssem, para logo serem apanhados e guardados no bolso do avental branco que cobria o lindo vestido azul-turquesa de Maria. Depois de obtermos uma boa quantidade da fruta que chegasse e sobrasse para os dois, saltei da árvore e finquei os joelhos no chão para amparar a minha queda.

Regalamo-nos à sombra de um sobreiro, acompanhados pela música ambiente dos pássaros e pelo cheiro adocicado dos pêssegos acabados de apanhar. Ainda hoje, passados tantos anos, consigo sentir o sabor dos pêssegos, sentir a sua textura rija, a sua polpa adocicada. Entre olhares fugazes, reparava na delicadeza com que pegava na fruta, examinava-a com cuidado, limpava algumas partículas de sujidade com as suas mãos pequenas e delicadas, e trincava-a com os olhos fechados saboreando-a. Aos meus olhos, os olhos ainda inocentes de uma criança de 8 anos, ela era a rapariga mais bela da nossa aldeia, e, nos meus pensamentos, imaginava-me casado com ela um dia, com muitos filhos do lado.

— Está a ficar tarde, eu tenho de ir para casa – disse-me com um tom preocupado.

— Eu acompanho-te – ofereci-me não porque a tivesse de proteger de algo, mas porque queria passar mais tempo com ela.

A casa da Maria era uma mansão! Feita de pedra, composta por três assoalhadas, e ladeada por um jardim bem cuidado. As tarefas da casa eram repartidas por duas criadas e um jardineiro. O pai, Francisco de Souza, era banqueiro na cidade mais próxima, pertencia a uma classe média-alta; era um dos poucos homens na aldeia que possuía um automóvel reluzente que espantava a populaça sempre que passava pelas ruas estreitas e poeirentas da nossa aldeia. Como era possível um veículo mover-se sem a ajuda de um burro ou de um cavalo?!

— Impressionante! – diziam alguns, à porta da tasca do Sr. Constantino, maravilhados com tal magnificência.

— É o fim do mundo! – replicavam outros.

A mãe, D. Graça Henriques de Souza, uma senhora cheia de etiqueta, vestida com grandes indumentárias da alta-costura de Paris, pavoneava-se pela aldeia, de nariz arrebitado, fingindo ser uma mulher da cidade e não uma campónia qualquer que se via obrigada a permanecer numa aldeola qualquer perdida no mundo. Mulher fervorosamente católica, não perdia uma única missa na igreja local, e participava ativamente em todas as ações de solidariedade para não perder a compostura.

Quando nos abeiramos da grande mansão, o jardineiro que estava a regar as tulipas em flor levantou um pouco a aba do seu chapéu em jeito de cumprimento, e, ao chegar ao portão a Maria disse:

— Amanhã, depois das aulas, podes vir aqui a minha casa? Tens que comer umas bolachas de canela que a Ana faz, são deliciosas!

— Combinado – respondi, já com água na boca.

— Então adeus – disse ela e desapareceu numa corrida.

Fiquei a vê-la a afastar-se, e quando me preparava para correr em direção à minha casa, reparei que a D. Graça me observava de uma das janelas com um ar repugnante.

 

 

— Quero ver como vou tirar esse verdete das calças! – Repreendeu-me a minha mãe furiosa, mal cheguei a casa. — Muito gostava de saber o que andas tu a fazer para chegares sempre a casa nesse estado.

— Andei a brincar, mãe – respondi com um tom mais natural possível.

Ela abanava a cabeça, já conformada com a difícil tarefa que tinha em mãos. Raramente se zangava comigo a sério, a minha mãe sempre foi uma boa mulher, boa até demais! Já o meu pai era totalmente diferente.

— Vai lavar essas mãos e essa cara que daqui a pouco jantamos.

— O pai não vem jantar? – perguntei.

— Duvido! Deve estar metido na tasca do Sr. Constantino.

O meu pai trabalhava na pedreira da aldeia. Todos os dias, depois do trabalho, parava sempre na tasca para apagar a sua sede infinita. Chegava a casa sempre tarde, a cambalear, já embriagado e com um olhar de puro ódio. Ódio da sua própria vida.

Bebi o resto do meu caldo de espinafres enquanto a minha mãe lavava a panela enegrecida pelo fogo da lareira em que cozinhava. Enquanto esfregava trauteava uma canção na sua voz doce e melodiosa. Adorava ouvi-la cantar, ficava horas e horas sentado no banco, embevecido, a escutar todas as músicas que aprendera na sua juventude, quando fazia parte do grupo folclórico da aldeia. Sabia-as quase todas de cor e, por vezes, acompanhava-a na minha voz de criança. Quando me enganava ria de mim mesmo e a minha mãe piscava-me o olho incentivando-me a continuar.

— José, é melhor subires para o teu quarto antes que o teu pai chegue. Se te apanha acordado, vai chatear-se!

Tanto eu como a minha mãe tínhamos um medo enorme do meu pai, principalmente quando chegava bêbedo a casa. Tornava-se tão agressivo e ameaçador que a sua própria voz me fazia tremer como varas verdes. Sem protestar, obedeci à minha mãe e, depois de lhe dar um beijo de boa noite, subi para o meu quarto.

O meu pai chegou poucos minutos depois. Encolhi-me todo na minha cama quando ouvi o estrondo que provocou ao abrir a porta.

— Isaura!! – gritou – onde está o meu jantar?

A minha mãe respondeu-lhe alguma coisa que não consegui compreender. Eu sabia que não tinha sobrado nada do caldo que ela fizera e depressa me culpei por ter sido tão guloso e ter devorado avidamente duas tigelas. A verdade é que o meu pai raramente jantava em casa, mas naquele dia decidiu embirrar com isso.

— Sua puta! Anda aqui um homem a matar-se a trabalhar para pôr comida na mesa e tu nem o jantar fazes para o teu marido?! Onde é que tu andas-te? Hã?

A minha mãe desfez-se em mil desculpas num tom de voz que eu não conseguia decifrar. Depois ouvi-a gritar entre bofetadas e pontapés, implorando-lhe para parar, pedindo-lhe que soltasse o seu cabelo, a chorar um pedido de perdão que nunca lhe foi concedido.

Incapaz de ouvir mais, coloquei a minha almofada por cima da cabeça, imaginando a minha mãe a cantar a suas doces melodias e a entoa-las baixinho, sobrepondo-as a todos os impropérios que ouvia o meu pai a gritar.

Quando o barulho por fim cessou, tive vontade de chorar.

 

01
Mai17

José - Prólogo

Sr. Solitário

O grande relógio de pêndulo que tenho na sala faz soar as suas badaladas cortando o ar adormecido e silencioso da minha mansão. Conto-as ao mesmo tempo que são tocadas; seis. São seis horas da manhã e eu já estou desperto. Levanto-me com alguma dificuldade, gemendo com o protesto dos meus ossos ajoelho-me e agradeço a Deus por me ter concedido a graça de viver por mais um dia, seguida da minha oração da manhã.

Desço até à cozinha onde encontro a Gertrudes afadigada na preparação do meu pequeno-almoço. Esta mulher trabalha demais, já lhe disse isso por diversas vezes, mas ela responde-me sempre com um sorriso que desde muita nova está habituada ao trabalho e que parar seria o mesmo que morrer.

Fico a contempla-la durante uns escassos minutos, absorvido pelos meus pensamentos, quase como que hipnotizado com os seus gestos, a facilidade com que manuseia as mãos na preparação dos alimentos. Quando dá pela minha presença, volta-se surpreendida, e presenteia-me com um dos seus sorrisos enquanto limpa as mãos ao seu avental.

 — Já se levantou, senhor…

 Levanto a mão para a interromper, não gosto quando a minha empregada me trata por senhor. Senhor só existe Um.

— Não me trate por senhor, Gertrudes. Apenas José.

Ela volta a sorrir, envergonhada.

— Não consigo! – E abana a cabeça quando o afirma para enfatizar a sua incapacidade de me tratar pelo meu nome próprio.

Já conheço a Gertrudes há muitos anos tal como ela me conhece a mim, diria mesmo que a conheço melhor do que a sua própria família, consigo decifrar cada emoção que transparece no seu rosto, mas mesmo assim ela recusa a olhar-me como um amigo.

Bebo um copo de água fresca e mastigo uma carcaça de pão seco. Estamos no tempo da Quaresma e eu, como bom católico que sou, faço o meu jejum. Encavalito os meus óculos no nariz e olho de relance para os matutinos que estão dispersos sobre a mesa enquanto a Gertrudes me estende os comprimidos para eu os tomar. São três, de diversas formas e cores, tomo-os todos de uma vez. Sou um homem que já conta com 72 primaveras, não tenho mais a força e a energia de outrora, os meus ossos tornaram-se tão fracos que podem partir com a mesma facilidade de um cristal. A medicação ajuda-os a tornarem-se mais fortes mas também me rouba a independência.

Vou para o escritório e sento-me defronte da minha secretária. Nela encontra-se uma remessa de folhas em branco que mandei providenciar à Gertrudes. Tenho uma ideia na cabeça que me surgiu enquanto lia um livro e, a partir desse dia, ela passeia na minha mente e teimosamente insiste em ficar.

Quero escrever a história da minha vida.

Devo estar louco, não sei, talvez seja melhor abordar este assunto com o médico numa próxima consulta. Que interesse teria a minha vida para os outros? Ninguém iria perder tempo a ler umas folhas soltas escritas por um velho raquítico. É o que penso, posso estar redondamente enganado, afinal a minha história dava um filme como muitos outros me dizem, por vezes em confissão.

Contudo, eu sinto a necessidade de a escrever, de passar todas as minhas emoções para estas folhas de papel, enchendo-as de tinta que só o tempo as poderá apagar. E se, amigo leitor, não se interessar no que nelas escrevo, resta-me apenas dar-lhe razão e pedir-lhe que as esqueça. São apenas memórias, nada mais. Memórias pesadas de um velho cansado de as carregar.

Uma leve batida na porta interrompe os meus pensamentos. Atiro um “entre” e a figura atarracada da Gertrudes espreita pela porta. Traz consigo uma chávena fumegante numa bandeja.

— Trouxe-lhe um chá de erva-cidreira, senhor Padre.

Agradeço-lhe e dispenso-a num gesto brusco. Quero ficar sozinho a escrever as minhas memórias.

— Está um dia lindo lá fora. O sol brilha e os pássaros cantam, dão as boas-vindas à primavera. Os amores-perfeitos que plantamos já começam a rebentar. Devia ir vê-los, senhor Padre, apanhar um pouco de ar, ia fazer-lhe bem.

— Hoje não quero. Perdoe-me Gertrudes, mas hoje quero ficar sozinho.

— Com certeza – e sai sem mais uma palavra.

Pego na minha esferográfica, nem sei por onde começar… Sim! Como uma boa história, tenho de começar pelo início, pela minha primeira memória.

 

23
Abr17

José - data de estreia

Sr. Solitário

(...)

Uma leve batida na porta interrompe os meus pensamentos. Atiro um “entre” e a figura atarracada da Gertrudes espreita pela porta. Traz consigo uma chávena fumegante numa bandeja.

— Trouxe-lhe um chá de erva-cidreira, senhor Padre.

Agradeço-lhe e dispenso-a. Quero ficar sozinho a escrever as minhas memórias.

— Está um dia lindo lá fora. O sol brilha e os pássaros cantam, dão as boas-vindas à primavera. Os amores-perfeitos que plantamos já começam a rebentar. Devia ir vê-los, senhor Padre, apanhar um pouco de ar, ia fazer-lhe bem.

— Hoje não quero. Perdoe-me Gertrudes, mas hoje quero ficar sozinho.

— Com certeza – e sai sem mais uma palavra.

Pego na minha esferográfica, nem sei por onde começar... Sim! Como uma boa história, tenho de começar pelo início, pela minha primeira memória.

 

data.jpg

 

14
Abr17

José - Sinopse

Sr. Solitário

José é um homem que carrega uma história de vida comovente. A sua infância, nos conturbados anos 50, é marcada pela morte da sua mãe num quadro de violência doméstica. José culpa o pai pela sua perda e diz nunca mais o perdoar.

Farto de toda a violência e miséria, José decide aceitar o convite de um padre que está de visita na sua aldeia e vai estudar para um seminário. Contudo, terá de ser obrigado a deixar para trás todos os seus amigos e, principalmente, a sua amada Maria.

Porém, por ironia do destino, José regressa à sua aldeia natal 15 anos depois, e descobre que a vida seguiu o seu rumo, nada é como antes.

Maria está de casamento marcado e José tem um compromisso inquebrável com a religião. Será que o amor é tão forte, capaz de quebrar todas as regras?

 

Está quase...

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