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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

26
Out16

Bullying (parte 6)

Sr. Solitário

Segunda-feira, 26 de novembro de 2001

 

Era já noite cerrada quando estava dentro do autocarro a caminho de casa. Não consegui arranjar lugar sentado, alguns estudantes colocam a mochila no outro assento e mostram o seu desagrado quando me aproximo, desencorajando-me a sequer pedir licença para sentar. O único lugar vago que vejo é um que antecede a "cozinha", mas não quero ir para lá, pois se for sei que vão martirizar-me todo o caminho e, então, desisto e sento-me nos degraus que levam à saída da porta traseira. Outros estudantes falam alto, riem-se e divertem-se numa cacofonia um pouco ensurdecedora. Olho para os vidros da porta que me devolvem uma paisagem escura com tonalidades de luz passageiras, desaparecendo tão rápido como aparecem, e penso no dia terrível que tive.

 

Todos esses pensamentos ficam a martelar a minha mente até me arrancar algumas lágrimas que deixo cair inconscientemente. Só dou por ela quando uma amiga se senta ao meu lado nos degraus e me pergunta o que se passa. Depressa limpo as lágrimas que caíram para as esconder mas já não vou a tempo, ela continua a olhar-me esperando uma resposta. Depois de alguma insistência confesso parte de algumas agressões de que fui vítima. Ela olha-me com tristeza e diz convincente que irá falar com a minha diretora de turma afim de acabar com aquilo imediatamente. Imploro-lhe para que não o faça, tinha medo das reações que podiam advir dessa exposição e censurei-me por ter falado de mais, apenas queria desabafar.

 

Dias depois, fui para a primeira aula a medo. Doía-me a barriga só de pensar no momento em que a diretora de turma iria abordar o assunto ali à frente de todos. Quando ela falava eu estacava pensando que seria aquele o momento por que tanto receava. Porém, a aula passou sem que ela nada disse e eu respirei fundo de alívio mas, no fundo, sentia uma desilusão porque nada iria mudar.

 

À noite, já no autocarro, a minha amiga veio falar comigo. Disse-me que tinha falado com a minha diretora de turma, tinha exposto toda a situação. No fim, ela disse-me algo que eu nunca vou esquecer, a resposta da minha diretora de turma perante a situação toda relatada.

"Sabes o que ela disse? Disse que não acreditava em nada do que lhe contei. Disse que não acreditava que os teus colegas fossem capazes de fazer tais coisas, e que tu é que inventaste esta história toda para chamares a atenção. Eu odeio essa tua professora!"

 

Eu também, eu também.

20
Ago16

Porque escrevo sobre bullying?

Sr. Solitário

Certamente que muitos de vós já repararam que tenho uma página no meu blogue exclusivamente sobre os meus textos pessoais onde falo sobre as agressões de que fui vítima na escola. Algumas pessoas me têm perguntado porque relato essas situações em vez de esquecer tudo isso e deixar de dar importância a um assunto que faz parte do passado, seguindo com a minha vida.

 

Pois hoje decidi responder a todas essas questões, de uma forma concisa, e sem testamentos. Não que esteja a reclamar de alguma coisa, não de todo! Agradeço muito todas as vossas palavras de apoio e incentivo. Quero apenas elucidar-vos.

 

Relato todas essas situações, essencialmente, para que as próprias vítimas que eventualmente me visitam, se identifiquem comigo e que possam ler os meus textos como uma forma de escape ou até mesmo uma golfada de ar fresco, sabendo que alguém, lá muito atrás, já sofreu das mesmas agressões, e que façam como eu, deitem tudo cá para fora, sem medo! E se alguém precisar de ajuda, pois não hesitem em contactar-me. Estou aqui para ajudar e aconselhar se preciso for.

 

Quero, também, com estes textos, alarmar os pais, para que estejam atentos ao mínimo sinal de que os seus filhos possam estar a passar pelo mesmo. Às vezes ler relatos pessoais sobre um determinado assunto, ajuda a perceber se alguém próximo padece do mesmo mal. Pelo menos é assim que eu penso.

 

Escrevo sobre bullying porque escrever faz-me libertar os fantasmas do passado que me atormentam.

Eu sobrevivi.

 

bullying.jpg

 

24
Jun16

Bullying (parte 5)

Sr. Solitário

Quinta-feira, 16 de março de 2000

 

Caminho sozinho pela escola durante o intervalo, de cabeça baixa, sorumbático. Não vou para nenhum lugar em especial, apenas caminho sem destino para não estar parado e perto dos meus colegas.

 

Hoje tive a aula que mais detesto - Educação Física. Foi dia de jogar futebol, coisa que odeio! Não tenho jeito nenhum para chutar uma bola e marcar golos como o Pauleta ou o Nuno Gomes. Ao formarem as equipas fico sempre para último, aquele que ninguém quer, que ninguém escolhe, e aceitam por imposição pelo professor com um encolher de ombros resignado.

 

Durante o jogo ninguém me liga nenhum. Não me passam a bola, não me dão sequer uma oportunidade. Passeio-me pelo campo feito uma marioneta, olhando os meus colegas que por sua vez riem-se das minhas pernas magras.

O professor, vendo que não estou ali a fazer nada, diz para eu ir para o outro campo, o das raparigas. Vou jogar juntamente com as meninas. Ecusado será dizer que todos se riram de mim.

 

A seguir à aula vem o momento que mais odeio. Tomar banho com todos os colegas. Um deles acusa-me de estar sempre a olhar e apreciar os orgãos genitais deles. Logo eu que tento sempre olhar para todos os lados menos para eles, lutando contra todas as minhas vontades, todos os meus desejos, pois eu não posso ser assim, não posso gostar de rapazes, isso não é normal!

 

Está quase na hora da próxima aula e dirijo-me para a sala. Uma colega minha faz-me um gesto para que me aproxime. Diz que quer fazer-me uma pergunta. Fico contente, pois eu quero muito, muito mesmo, relacionar-me com todos eles e, se puder ser útil, talvez parem de gozar comigo e me aceitem.

 

Ela pergunta-me: "já te veio o período?". Todos se riem. Não respondi e fui para a aula. Tenho vontade de chorar mas até contra essa vontade tenho de lutar.

17
Jun16

Bullying (parte 4)

Sr. Solitário

Recebi um relógio no meu aniversário. Um Lorus, boa marca, segundo me disseram. Mas que bela prenda! Coloquei o relógio no pulso direito e não parava de ver as horas, encantado. Iria fazer um sucesso na escola, pois sempre que quisessem saber as horas, iriam perguntar-me e eu, todo vaidoso, iria responder. Os meus colegas dar-me-iam mais atenção.

 

Numa segunda-feira de manhã, lá fui todo contente para a escola com o meu relógio novo. Porém, essa alegria não durou muito.

"Ó moço, o relógio usa-se no pulso esquerdo, não é no pulso direito!"

"Hahahaha, ele gosta de usar no pulso direito, como as mulheres."

 

Eu não sabia que um relógio tinha um pulso específico para ser usado. Ignorei. Na aula, ele disse-me "muda o relógio para o outro pulso". Eu respondi que não queria.

"Deixa de ser tono e muda-me a porcaria do relógio para o outro pulso!"

"Deixa-me em paz" - repliquei.

"Mas tu pensas que estás a falar com quem? Tu não me provoques! Se não mudas o relógio para o outro pulso, chegas lá fora e parto-te os dentes todos! Bichona!"

 

Eu mudei o relógio para o outro pulso como ele ordenou. Cheguei a casa e guardei o relógio numa gaveta.

Nunca mais o usei.

 

27
Mai16

Bullying (parte 3)

Sr. Solitário

Estamos em setembro, no ano de 2000. Mais um ano letivo irá começar. E a minha tortura também. Depois de 9 meses sob agressões de todo o género, 3 meses de férias é muito pouco, não chega para curar as feridas.

 

Ao entrar novamente pelos portões da escola após as férias, faço-o a medo, com um aperto muito grande no peito, pois eu sei perfeitamente o que vai acontecer durante mais um ano. No fundo de mim, tenho uma esperança que, pelo menos, o meu principal agressor tenha mudado de turma ou que no mínimo não fiquemos na mesma mesa. O ano passado ele era o número 11 e eu o 12.

 

Dirijo-me à sala polivalente onde estão afixados os horários e as listas das turmas. Nada mudou. Ele continua a ser o 11 e eu o 12. Iremos partilhar mais um ano a mesma mesa. Mais um ano em que o agressor estará tão perto de mim, torturando-me mesmo durante as aulas. Eu não mereço! Ninguém merece.

Uma das minha amigas diz "vais ficar outra vez a beira do (***) ,que horror!". Pois é, é mesmo um horror, mas ninguém quer saber, tenho que aturar. É a vida.

 

Vou para a sala onde vou ter a primeira aula. Pelo caminho ouço "olha a bicha" e dão-me uma chapada na cabeça em jeito de boas vindas. Os outros riem-se de mim.

Não digo nada, nem um ai! Porque se eu disser "ai" eles gozam logo comigo. Um homem nunca diz "ai", isso é coisa para abichanados, como eu.

 

Na aula é-nos pedido para preencher uma ficha. Estou tão transtornado que me engano a escrever a minha data de nascimento. O agressor que está ao meu lado apercebe-se e diz em alto e bom som "ó moço, nascente em 2000?! És mesmo tono!" Outra chapada na cabeça. Os outros riem-se. A professora faz de conta que não viu nada. Estão mais de 20 pessoas naquela sala, mas ninguém viu nada.

 

Durante a aula, o principal agressor começa a rasgar folhas do caderno, amachuca-as e põe-nas dentro da minha camisola. Eu tiro-as. Ele diz que se volto a tirar alguma chego lá fora e ele parte-me os dentes todos. Ele continua. Eu fico quieto. Mas não consigo aguentar mais e começo a chorar. A professora pergunta o que se passa e porque estou a chorar. Não consigo responder e ela manda-me lá para fora para respirar um pouco de ar.

Ele fica lá dentro como se não tivesse feito nada. Quem me mandou chorar? Assim perdi a aula. Problema meu.

 

welcome-bullying-colouring.jpg

 

07
Mai16

Bullying (parte 2)

Sr. Solitário

São 17 horas. O dia começa a findar-se, pois estamos no horário de inverno. Não tive a ultima aula do dia mas tenho que esperar pela hora do autocarro aqui dentro da escola. O autocarro chega sempre por volta das 18:30 só. Para passar o tempo caminho pela escola e fantasio muitas coisas na minha mente, brinco ao faz de conta.

Existe um mundo paralelo na minha cabeça, um mundo imaginário, sonhador. Nesse mundo acontece tudo aquilo que eu quero que aconteça. Nesse meu próprio mundo eu sou um herói e todos os alunos da escola gostam de mim e dão-me palmadas nas costas, congratulando-me.

 

Depois de um dia exaustivo de aulas com algumas agressões verbais à mistura, a minha vontade é chegar rapidamente a casa, jantar e ver televisão até à hora de me deitar. Ou então brincar com os meus verdadeiros amigos, os meus vizinhos. Na escola não tenho amigos, só pessoas que gozam comigo e me tratam como se fosse lixo.

 

De repente, eis que surgem dois rapazes na minha direção. Não gosto deles... Fazem-me coisas horríveis. O meu coração começa a bater descompassadamente. Dá-me um frio na barriga... Nunca senti tanto medo em toda a minha vida, pois eu sei o que aí vinha...

A primeira coisa que me dizem quando chegam perto de mim é apenas um "olá".

Seguidamente cospem-me na cara!

Escondo a cara com os braços, horrorizado. Continuo a caminhar pensando que isto acaba por ali. Mas eles continuam. Cospem-me da cabeça aos pés deixando-me sujo, nojento! Tento fugir, mas um deles agarra-me para que não possa fugir mais. O outro continua a cuspir. Riem-se muito de mim e daquilo que estão a fazer.

Não digo nada, fico em silêncio. Não sei que dizer, mesmo que diga alguma coisa será pior para mim. Podem-me bater.

Ser cuspido é horrível! Mas se me baterem é pior, vai doer mais.

 

Anoiteceu e não há ninguém na escola à vista para me ajudar.

Finalmente eles param e eu fujo para a casa de banho. Passo água na cara e na roupa para limpar a expectoração toda que tenho deles. Fico com nojo de mim próprio, com um cheiro nauseabundo que me dá vómitos. E choro, choro muito! A água que passo no meu rosto e cai pelo ralo abaixo também levam as minhas lágrimas salgadas e amarguradas. Tenho vontade de desaparecer.

 

Chego a casa e não conto nada a ninguém. É humilhação demais ter de contar uma situação tão nojenta, tão cruel. Iriam gozar ainda mais comigo por eu não saber defender-me de tamanhos actos. Mas como posso eu defender-me se tremo de medo da cabeça aos pés!

Amanhã será outro dia...
 

o-BULLYING-facebook.jpg

 

27
Abr16

Bullying (parte 1)

Sr. Solitário

São 7h da manhã.

Acordo com uma sensação de medo. Hoje será mais um dia de aulas naquela escola que não gosto, que só me traz más recordações.

Não quero ir para a escola. Talvez se fingir que adormeci, a minha mãe não dá por ela e assim consigo esquivar-me de ir à escola hoje. Só hoje...

Faço uma pequena oração ao meu Deus para que a minha mãe também adormeça... Mas ela acabou de chamar por mim. Oh não!!

Levanto-me, visto-me, tomo o pequeno almoço e, resignado, vou apanhar o autocarro para a escola, a pé, de cabeça baixa.

Só peço que hoje ninguém dê por mim, que ninguém se lembre que eu existo. Queria tanto tornar-me invisível para todos.

 

Chego à escola e, discretamente, vou para a porta da minha sala. Subitamente, alguém me bate na cabeça e me chama de bicha. Esta é a minha alcunha na escola: "bicha". Odeio que me chamem isso, principalmente à frente de toda a gente. Tenho vergonha. Os colegas riem-se tanto e eu calo-me. Não protesto porque senão é pior. Tenho medo deles.

 

A caminho da sala vejo, no meu caminho, alguém que costuma gozar muito comigo também. Tremo da cabeça aos pés. Dou meia volta e vou para a sala por outro caminho para não me cruzar com ele. Parece que ele não me viu. Tenho que andar sempre assim, alerta!

Chego à porta da minha sala. Alguns dos meus colegas já lá estão. Uns dizem-me "olá tudo bem?", outros dizem "chegou a bicha" como se eu fosse alguma criatura nojenta, execrável.

 

Falo com os meus amigos e conto como foi o meu fim de semana. A professora chega e vamos para a aula.

Durante a aula, a professora coloca-nos questões. Eu sei a resposta a muitas delas, mas não me atrevo a responder porque senão serei motivo de chacota mais uma vez. Se respondo mal é porque sou estúpido, se respondo bem é porque sou um convencido que acha que sabe tudo! Prefiro estar calado. Qualquer coisa por mais pequena que seja serve de motivo de riso e de agressão.

 

Durante o intervalo como o meu lanche sozinho. E passeio sozinho. Alguns rapazes me vêm e dizem "olha a bicha"! Um deles olha para mim com nojo e pergunta-me o que estou ali a fazer. Não respondo e continuo a caminhar. Até que ele me diz "mata-te, faz um favor à humanidade e mata-te!".

 

Tenho vontade de chorar. Por vezes choro na casa de banho, longe de todos. Não quero contar a ninguém o que se passa se me virem a chorar. O facto de contar é uma vergonha para mim.

O dia vai passando e, finalmente, chego a casa. Não conto nada a ninguém, guardo-o só para mim. Se a minha mãe soubesse tantas coisas que tinha vontade de lhe contar... Ficava a falar uma noite inteira! Muitas vezes deito-me e choro em silêncio até adormecer...

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