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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

29
Mai17

Escondo-me em palavras

Sr. Solitário

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O mundo agita-se lá fora. Há sempre um burburinho no ar, abafado pelas janelas, que corta o pesado silêncio que as paredes enrugadas da minha casa carregam. Todas elas são testemunhas da minha solidão, são elas que amparam os meus golpes de desespero, são elas que calam o meu choro. Se fossem notificadas por um qualquer tribunal dos sentimentos, onde eu me sentava na cadeira do réu, estas paredes eram a prova mais fidedigna da minha culpa.

 

Sento-me no sofá da sala com um livro nas mãos, abro-o e sou invadido pelo conforto das palavras, elas abraçam-me o corpo esguio, levantam-me e levam-me para onde elas querem ir. E eu deixo-me levar.

Conheço várias pessoas, variadas personagens que as palavras do livro me apresentam, e sinto que a minha solidão se desvanece aos poucos, transformando-se num sentimento quase inexistente. Vivo tantas aventuras, presencio tantos momentos, que de tão singelos que são me trazem de novo à vida, àquela vida que eu quero viver.

Porém, as palavras começam a dançar num ritmo que não compreendo perante os meus olhos já de si cansados, tenho que parar e fechar o livro, voltar para a minha clausura.

 

Reparo que o mundo lá fora não parou enquanto estive ausente, o burburinho continua, eu é que não o acompanhei. Não me importo - penso com um encolher de ombros - prefiro mil vezes a vida que se passa nos livros do que viver a minha própria vida.

Fecho as cortinas, entregando a casa mais uma vez à escuridão, e nela permaneço até que tenha vontade de ler novamente.

 

 

17
Nov16

No silêncio do meu quarto

Sr. Solitário

No silêncio do meu quarto, penso em ti. Já é dia, mas dentro destas quatro paredes ainda é noite; está escuro e o espaço que alberga a minha parca mobília está em absoluta taciturnidade. Ouço o chilrear de alguns pássaros, cães a ladrar, galos a cantar, a vida que acorda lá fora, do outro lado da minha janela, coberta com o estore.

Consigo vislumbrar a sombra de alguns objetos, fazendo um esforço para que a minha visão se adapte à escuridão, com uma minguada luz que atravessa as frinchas da porta, e neles poiso o meu olhar vazio enquanto divago entre as minhas memórias e os meus pensamentos.

 

No silêncio do meu quarto, penso em ti. Sorrio para o vazio quando uma recordação mais feliz me assola a mente. Contudo, ela não vem sozinha, traz outra e mais outra consigo, vêm em catadupa como uma cascata de emoções. Estas não me fazem sorrir... não! Estas são diferentes. Elas fazem com que me abrace a mim mesmo e me aconchegue mais nos cobertores para aquecer o frio que invadiu o meu corpo débil de carinho.

Apago-as da minha cabeça com um abanão e levanto-me, enfrentando mais um dia que já se levantou muito antes de mim. Tomo o meu pequeno-almoço olhando a televisão sem prestar atenção alguma ao que ela transmite. Hoje, as minhas atenções estão voltadas para ti, para as tuas palavras, para os teus sorrisos, para o teu rosto de barba farta que anseio tocar...

 

Ligo o computador e recebo um "Bom Dia" que me faz sorrir. Esqueço o silêncio do meu quarto escuro e dou mais cor ao meu dia. Coloco os meus óculos e começo a escrever... a escrever um texto que se iniciou com uma frase curta e que se tornou numa prosa intencional e verdadeira.

 

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20
Out16

Nu

Sr. Solitário

Sinto-me nu. Um vento frio envolve o meu corpo magro e estremeço ao seu toque. Coloco os braços em redor do meu pescoço e fecho os olhos sentindo a sensação de liberdade que me transforma num ser solto, desprendido de pudor. Inspiro profundamente e vejo o meu reflexo no espelho, que me devolve uma imagem que me desagrada. Não gosto do meu corpo, é magro demais, é disforme, é triste, não tem cor.

 

Sinto-me nu, transparente. Os meus lábios estão secos, o meu rosto imberbe aparenta marcas de sorrisos, lágrimas, sentimentos. As minhas emoções estão à flor da pele e os meus pelos eriçam-se arrepiados. Não necessito de uma visão raio X para contar as minhas costelas, elas mostram-se perfiladas na minha pele branca. Os meus cotovelos e os meus joelhos são proeminentes, esticando a pele quando fletidos.

 

Sinto-me nu. Visto-me de palavras, palavras simples que tatuo no meu corpo e permaneço mudo. Adorno-me de sonhos e a minha indumentária dá cor ao meu rosto, abrilhanta o meu olhar. E o dia passa.

 

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