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Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

Sr. Solitário

Aquilo que penso. Aquilo que sinto. Aquilo que sou.

04
Jun18

Na hora da despedida

Sr. Solitário

Já é noite quando percorremos as ruas dos vários lugares onde passamos. Ambos já conhecemos o caminho de cor mas, para aproveitar cada minuto, o Dany conduz com toda a calma, numa velocidade mínima, só com uma mão pois a outra está sempre entre as minhas no meu colo.

Passamos um excelente fim de semana, aliás como todos os outros desde que o conheci, porém já é domingo à noite... como o tempo passa rápido!

 

Mon amour, tu vas me manquer - meu amor, vou sentir a tua falta - diz-me sempre que estamos prestes a aproximarmo-nos da minha casa e o meu coração começa a ficar pequenino. Aperto mais a mão dele entre as minhas e ele leva uma das minhas aos seus lábios para a beijar como sempre faz.

Estacionamos perto, na berma da estrada mais à frente, para fugir um pouco ao movimento dos restaurantes da minha aldeia. Olhamos para trás e para a frente, o caminho está livre, ninguém nos vê. Beijamo-nos e abraçamo-nos num abraço apertado e longo. Ah como eu queria parar o tempo ali!

 

Dizemos "boa noite" e "dorme bem" umas 3 ou 4 vezes, como somos tolos! Nenhum de nós quer ir embora, mas tem que ser. A vida não para.

Saio do carro e caminho em passos apressados até minha casa para fugir do frio. Contudo, ainda consigo vê-lo partir e, na obscuridade do seu carro, vislumbro o seu sorriso enquanto me acena, e ainda consigo ler nos seus lábios as palavras "Je t'aime".

Sombra-alargada-a28550441.jpg

 

21
Mai18

De coração cheio

Sr. Solitário

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"Meu homem, cada um é como é, e ninguém tem nada a ver com isso, o importante é que tu estejas feliz. Se tu estás feliz, eu também estou feliz. Não deixas de ser meu filho por causa disso e eu amar-te-ei sempre tal como és".

 

Estas foram as palavras do meu pai quando soube da minha orientação sexual. Disse-o por telefone no dia do meu aniversário. O melhor presente que poderia receber dele. Estava num hipermercado e nesse momento esqueci-me completamente do que queria comprar. Andava pelos corredores sem nada ver tal era a minha ânsia de pular de alegria! Senti vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo.

Sempre tive receio da reação do meu pai quando soubesse. Sempre escondi dele a minha verdadeira identidade. Nunca quis desiludi-lo, nunca quis quebrar o estereótipo do filho perfeito e desejado, do qual sempre teve um orgulho enorme. Envergonha-lo talvez perante a sua família... nós sabemos o quanto as pessoas podem magoar ao criticar certas "escolhas". Quando ele me perguntava onde estava a minha namorada, eu respondia-lhe sempre com palavras vagas, dizendo-lhe que "eu vou namorando".

 

Contei ao Dany, o meu namorado, e tocamo-nos ao de leve na mão. A minha vontade era abraça-lo e beija-lo ali no meio da multidão que observava as promoções, mas contive-me porque ainda tenho medo da reação das pessoas. Adoro quando posso aninhar o meu pescoço no ombro dele num abraço apertado. Nos braços dele sinto-me seguro, sinto-me leve, sinto que esperei toda a minha vida por ele.

 

Se isto não é a felicidade, creio que andarei lá muito perto.

 

 

06
Jul17

Isto choca?

Sr. Solitário

Amanhã estará nas bancas a revista Cristina deste mês. Mas, na sua página oficial do Facebook e no Instagram, a apresentadora e diretora de conteúdos publicou as imagens de três capas diferentes que irão ser apresentadas.

A publicação será dedicada ao amor e, para fazer jus à palavra já de si grandiosa, na minha opinião, as capas são as seguintes:

 

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Como seria de esperar, tais publicações geraram milhares de comentários dos seus seguidores, uns apoiando totalmente a iniciativa, outros nem por isso.

Saber que existem cidadãos que são contra a homossexualidade, não aceitam como se essa fosse uma decisão só sua, já não me interessa minimamente. Felizmente eu estou bem resolvido com a minha vida, e a dos outros não me interessa, não contribui para a minha felicidade.

O que me choca essencialmente são muitos dos comentários que li. Do pior! Em pleno século XXI ler comentários do género:

 

"Paneleiros, metem-me nojo!"

 

"Porcas, deviam era ter vergonha!"

 

"Putas e Paneleiros rio com esses porcos, para mim sao igual apanhar violadores e pedofilos"

 

"As duas chocam... querem a toda a força que isto seja normal????? normal é um homem e uma mulher amarem-se não existe nada mais lindo que o Amor entre um casal, afinal isto são os princípios da vida... eu respeito estas pessoas porque como cidadã tenho que respeitar o próximo mas não me peçam para aceitar isto como uma coisa normal... Desculpem mas para mim isto é uma disfunção hormonal que devem tentar tratar com todo o devido respeito que tenho por estas pessoas!"

 

"Grande nojo. Esta mulherzinha anda a ser mal aconselhada. Que nojeira e falta de vergonha. Será que à revista também já é pornográfica?"

 

" LAMENTÁVEL!!! Numa sociedade normal e civilizada, NÃO PODE HAVER LUGAR PARA ESTES ANORMAIS!! E quem tem a infeliz ideia de publicar esta aberração, só pode merecer o maior repúdio! VERGONHOSO!!"

 

"Deviam casar-se aos molhos de dúzia é meia. Mais fêmeas sobravam para os verdadeiros homens. Abrenuncia... Santanás. Credo!!!"

 

Isto entristece-me imenso! Não como homossexual assumido que sou, mas sim como cidadão português. Tenho vergonha de fazer parte desta sociedade.

Dizem que as mentalidades estão a mudar a cada ano que passa, mas depois disto deixei de acreditar nessas palavras. Sem mais a acrescentar.

 

E a vocês? Estas imagens chocam?

 

22
Nov16

Ainda existe preconceito? Sim, existe

Sr. Solitário

Num dia comum como muitos outros, não há muito tempo atrás, no momento em que calcorreava o caminho que faço habitualmente por desporto, deparei-me com mais uma situação de preconceito.

Nesse meu trajeto que faço todos os dias - ou melhor dizendo, fazia! -, passava sempre por uma fábrica onde os funcionários são todos do sexo masculino. Ora estava eu absorto nos meus pensamentos, com a fábrica a meros metros de distância mais à frente, quando ouço o seguinte: "Olha vem aí o paneleiro!". Estas palavras foram proferidas em alto e bom som para que todos os que estavam presentes me pudessem observar enquanto ele apontava diretamente para mim, olhando-me nos olhos e sabendo que eu o estava a ouvir.

 

Disse para mim próprio que não ia permitir que eles vissem o quanto aquelas palavras me afetaram e continuei a caminhar sempre ao mesmo ritmo enquanto passava pela empresa, totalmente consciente que todos os olhares estavam postos em mim, ouvindo sempre um burburinho de comentários e aqueles risinhos trocistas.

O tal rapaz continuou com o seu discurso de macho: "Ó Miguel, olha ali o teu namorado a passar, anda ver!". De seguida ouvi um assobio, daqueles assobios atrevidos e apreciativos que os homens lançam às mulheres que passam por eles, e depois não ouvi mais nada, pois os meus passos já me tinham levado para longe dali.

 

Durante a minha vida aprendi a proteger-me contra todas estas palavras, como uma capa ou uma carapaça das tartarugas, contudo, e como costumam dizer, elas não matam mas mordem. Senti-me humilhado e, agora, não tenho coragem de passar lá novamente. Faço um desvio. Sei que faço mal, mas prefiro assim. É que custa um pouco ouvir certas coisas e ser o centro de atenções indesejadas.

 

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13
Out16

O convite

Sr. Solitário

Um convite chegou-me às mãos num envelope branco, escrito com o meu nome numa caligrafia solta. Soube logo do que se tratava e o meu coração encheu-se de orgulho, admirando a coragem do meu primo, uma bravura que certamente eu não teria. É preciso ser-se muito homem neste mundo para assumir-se como homossexual.

Ao abrir o sobrescrito, este continha um convite de casamento muito original. João e Steven decidiram casar-se em Portugal, ao abrigo da lei portuguesa, convidando todos os familiares e amigos, sem exceção. Uns aceitaram de bom grado em comparecer à celebração; outros aceitam apenas por curiosidade, afinal é algo de diferente; os demais não aceitarão, alegando que é um acontecimento que não faz sentido, não é normal.

Evidentemente que eu vou, faz todo o sentido que eu vá, faço questão em comparecer e felicitar os recém-casados. Será algo único e inesquecível que terei todo o prazer em participar.

 

Trata-se de amor, de felicidade. É a união de dois seres humanos que se amam e se completam, independentemente da orientação sexual que têm. Guardo este convite com todo o cuidado dentro do envelope e, por vezes, olho-o ainda com mais admiração. Penso em como irei vestido e várias ideias surgem-me na cabeça. Não que queira tirar protagonismo aos noivos, nem pensar! Mas quero marcar a minha presença e fazer desse dia o início de uma longa caminhada para que todos nós sejamos aceites no seio familiar e na sociedade em geral.

 

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14
Set16

Ouço cada coisa...

Sr. Solitário

Se há coisa que me irrita, assim aquela irritação que pica, são as opiniões das pessoas em relação a certos assuntos que desconhecem totalmente. A opinião delas é que conta, é a mais acertada e tudo deveria ser como elas dizem, pois são elas que têm a razão. É que faziam melhor figura se estivessem caladas.

Num destes dias ouvi uma barbaridade deste género:

 

"Há tanta coisa com que os políticos se devem preocupar no nosso país, e andam esses cabrões preocupados em aceitar a adoção de crianças para os paneleiros. Onde é que já se viu isto? Só mesmo neste país. Quando a criança crescer vai chamar pelo pai e pela mãe... e a mãe onde está?"

 

Tais comentários revoltam-me imenso!

Primeiro porque são vindos de pessoas completamente mal educadas, mal formadas, com imensa falta de civismo e ignorantes até.

Segundo porque, na minha opinião, o assunto das crianças abandonadas neste país e nas condições deploráveis em que muitas delas vivem, deve ser um assunto de maior importância, pois são as crianças o futuro do nosso país, e penso que não estou muito enganado assim. Gostaria de perguntar a estas pessoas o seguinte: é melhor deixar as crianças abandonadas por aí e deixa-las em orfanatos onde são mal tratadas e sujeitas a qualquer tipo de humilhação? Pensem um pouco antes de dizerem certas coisas.

 

Quero também deixar bem claro uma coisa: um paneleiro é um indivíduo que faz panelas. Essas pessoas a que vocês se referem como paneleiros são humanos, e como tal têm que ser aceites na nossa sociedade, são homossexuais, e como qualquer cidadão português têm direito a serem respeitados.

Quantas crianças são abandonadas pela mãe e crescem completamente saudáveis ao lado de um pai que faz de pai e mãe ao mesmo tempo? Muitas delas.

Pergunto-me o que fariam essas pessoas se os seus filhos lhe dissessem que são homossexuais, o que fariam? Colocava-os fora de casa? Certamente que sim.

 

01
Jul16

És assumido?

Sr. Solitário

Quando me fazem esta pergunta não sei o que responder. Afinal o que é ser gay assumido? É ter alguma coisa escrita na testa? Ou colocar uma placa nas costas com umas letras garrafais escritas "eu sou gay"? Sinceramente é o que me apetece responder, mas este assunto é mais complicado do que parece.

 

Será que ser gay assumido é andar na rua de mão dada com o nosso companheiro, trocar carícias e beijos em público? Então eu não sou um gay assumido. Porque tenho medo desta sociedade ainda de mente muito fechada. Já fui apedrejado, não sei o que viria a seguir.

 

A minha família mais próxima sabe desta minha orientação. Uns aceitam muito bem e apoiam-me, outros preferem não falar do assunto. Se ser gay assumido é a família e amigos saberem da minha orientação, então sou assumido. Não sei.

 

O importante é que seja feliz e que me sinta bem comigo mesmo. E sabem que mais? Adoro ser como sou. Adoro ser gay!

 

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